Guarajuba, segundo a classificação ictiológica é um peixe do mar cujo sabor é desagradável. Mas o que de fato eu quero aqui focalizar não é peixe nem peixinho, é um homem de carne e osso que em certas ocasiões se transforma em um ser desagradável.
Caboclo forte como um touro, tinha como meio de subsistência a profissão de prático fluvial, a pilotar embarcações motorizadas de pequena e média cabotagem que navegavam nos paranás¹ da vasta Amazônia. Com invulgar competência (de palmo a palmo), conhecia os profundos e rasos canais e os movediços baixios submersos na calha sedimentar do Rio-mar. Em razão de sua experiência no ramo da praticagem, sempre foi disputado pelos armadores da região.
Guarajuba vidrava-se em dançarás², comuns nos beiradões dos rios. Ao ouvir o pipocar de fogos, marcava o rumo e seguia na direção dos mesmos, chovesse ou ventasse, para castigar o samba umbigado com as morenas da paróquia. Um gênio* pacato adormecia no aconchego dos seus avantajados músculos, aparentando uma cândida docilidade, porém explodia assim que viesse a bebericar a maldita pinga: o espinafre estava para o Popeye assim como a cachaça estava para o Guarajuba.
Em certa ocasião, desembarcava para curtir um descanso restaurador, no que aproveitando o embalo, balançou o esqueleto num forró realizado à margem do Rio Maiauatá próximo à baía de Marapatá. Ele ouviu os fogos, calculou as coordenadas, pegou a sua bússola e dirigiu-se para lá na expectativa de apertar entre os seus músculos as cabrochinhas cheirosas de priprioca, patichuli e jasmim de Santo Antônio.
O local da festança centrava-se num barracão de palafita, cobertura de palha, assoalho de madeira e frágeis réguas de jupati formando as divisórias. A praia aluviônica de constituição lodosa e sujeita ao regime diário das marés, sustentava a base da casa. Na realidade era um baixio coberto de aningais. No “teatro” da festa abre-se um ambiente iluminado a porongas³ de quatro pavios à querosene, sendo que no primeiro ato reza-se a ladainha. No segundo ato, o estrugir da foguetaria, marcando o início do forró o qual encena a parte profana da noite, onde os músicos põem a vibrar os instrumentos aplicando chicotadas nos dançarinos apáticos, num ritual frenético mandando um cachorrinho apimentado do naipe de o “tico-tico no fubá”.
Eu estava presente nessa festa. Emprestamos um rebocão com tolda, e contratamos dois remeiros de faia que impulsionaram a embarcação rumo à festa, levando-me com dois amigos, a cozinheira da minha irmã e a prima Corina, que seguiu sob protesto da mãe, pois estava de resguardo do parto. Contrariando a proibição materna assim mesmo foi, toda empacotada em um lençol, meias compridas, sapato e chapéu, tinha que evitar pegar sereno, pisar n'água e livrar-se de vento encanado, prescrições essas recomendadas pelas velhas parteiras do interior.
Chegando ao recinto interno do barracão, avistei o Guarajuba a demonstrar na máscara da face os efeitos da ingestão de alguns goles de pinga. A festa já ia bem animada, enquanto lá fora as estrelas brilhavam num céu azul sem mantas de algodão. A água enchente banhava a praia, passando por baixo do assoalho.
Lá pelas tantas que o relógio marcava, pisaram no pé do Guarajuba atingindo seu velho calo de estimação, o que veio a se transformar no estopim de quem já marcava 60 graus de carraspana, fazendo despertar um adormecido gigante para distribuir gratuitamente a gregos e troianos saraivada de bofetes. A música parou abafada pelo reboar dos socos, quedas, rasteiras bofetões, enquanto os músicos se escafederam para salvar o lombo e os instrumentos. No panorama aguerrido do salão, apenas os santos do oratório escaparam de apanhar porque ficaram quietos e não protestaram.
O brigante líder, fora do seu eixo de equilíbrio emocional, como o King-Kong levantava e aparava quem surgisse em sua frente arremessando-os contra as frágeis paredes de jupati, atravessando-os da sala para a varanda. As paredes ruíram, o espaço interno da casa transformara-se num grande ringue de briga. Por falta de espaço, as mulheres (apavoradas) espalharam-se pela praia de lama com água pelos joelhos, procurando suas montarias no intuito de rumarem na direção de suas casas.
A briga continuou madrugada adentro, cuja arma felizmente era apenas o braço. Como tinha ido à festa para dançar e não para assistir luta livre, reuni os companheiros para o regresso, faltou apenas a Corina, que procuramos e não encontramos às proximidades da briga e assim mesmo, resolvemos ir embora sem ela. Ao chegarmos a bordo, lá estava a Corina, encolhida debaixo da tolda.
- Ué! Corina. Furaste a briga? - perguntei -
- Qual nada, eu vim por debaixo do assoalho, com água até o umbigo.
- Posso então dizer que o teu resguardo de parto foi para o espaço.
- Infelizmente foi.
Os brigantes festeiros já exaustos de tanto brigarem, quedaram-se sonolentos, ostentando como troféu apenas baques, equimoses, raladuras e luxações sem, entretanto ter havido fraturas a lamentar. O que ocorreu após o meu regresso só tive conhecimento posteriormente através do relato feito pelo dono do barracão. Soube que o clarão amortecido da madrugada anunciava o alvorecer naquele ambiente destroçado, em que o silêncio a todos dominava inclusive os “brigadeiros” que permaneceram deitados de barriga para cima no chão da festa. Tudo parado, nem um fiapo de vento, apenas o grasnar rouquenho das ciganas no aningal. Nem um galo para anunciar o amanhecer. De galos apenas aqueles que das cutiladas surgiram nas cabeças dos brigantes.
O rescaldo dessa memorável briga ganhou estória nos anais de domínio publico. Guarajuba e seus colegas de briga ainda se refaziam da refrega do desforço4, ouviram algo quebrando o silêncio ambiental vindo do porto do barracão, todos se levantaram: brigador e participantes. De pé, todos viram quando um batelão encostou à borda do trapiche. Salta o agente de polícia daquele distrito, que desembrulhando a língua foi logo dizendo:
- Estão todos presos!
- Quem, nós? .
- Exatamente. Todos para bordo do "Pai da Barra".
Pai da barra foi um batelão grande, apropriado para transportar palha de ubuçu de Igarapé-Miri para Belém, palha essa apropriada para cobertura de barracos. Essa embarcação pertencia a Antonio Monteiro Lopes, mais conhecido como Antonico Arara, proprietário da Casa Ararinha, grande empório comercial e porto de lenha ali localizado para abastecer os navios-gaiola da linha amazônica.
Só que naquele evento de festa fracassada, ao invés de palha, a carga a transportar seria festeiros briguentos. O agente, que morava às proximidades da festa (como bom farejador) deitado em sua rede, sentiu naquela noite um cheiro de briga, e como precisava faturar algumas pelegas de cinco mil reis, apressou-se em alugar o Pai da Barra, embarcação movida a braço humano, com duas faias de popa em movimento de ginga.
Com a guarnição completa de quinze presos, o Pai da Barra zarpou pela manhã, a percorrer (contra a maré) até a cidade, cuja distância percorrida por uma embarcação motorizada gastaria duas horas de viajem. Durante a viagem punitiva, dois a dois presos, se revezavam na ginga dos faiás, debaixo de um sol acolhedor. Ao chegarem à cidade os presos desembarcaram e seguiram para delegacia. O delegado resolveu não enxadrezar os valentões, mesmo porque na briga não houve morte e nem ferimentos graves. A punição ficou por conta da viagem forçada acrescida do pagamento da carceragem e os cinco mil reis destinados ao agente de polícia, dinheiro esse que deixou de ser gasto pelos brigadores com as namoradas naquela inusitada festa.
Outra maratona de regresso estava programada para os brigadores não fosse a sorte de um rebocador que saindo da cidade com destino ao município de Cametá se prontificasse a rebocar o Pai da Barra até o porto Ararinha. Essa lição deveria servir de exemplo para que o Guarajuba em festas futuras baixasse a juba, para não virar uma fera quando o néctar de alambique tentasse agir no seu comportamento sociável.
Glossário:
1. Paranás – Bifurcações em rios.
2. Dançarás – Bailarico.
3. Poronga – Tipo de lamparina abastecida com querosene.
4. Desforço – Reparação de afronta (por meio de força). = Vingança.
*Personalidade.
*Personalidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário