quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O tufinho

Uma história do mundo da fantasia, mostrando que nesta Amazônia tudo pode acontecer em se tratando até mesmo de manifestações oriundas de lendas milenares onde surgem sacis, boitatás e mapinguaris. A história que vou reproduzir ao meu modo, não se trata de lendas ou crendices que percorrem caminhos primevos até hoje. Vejamos.
         À margem de um rio tocantino morava o Tibúrcio, pacato pescador junto à companheira Chica e o velho cão Cavaco, que sempre deitado a um canto do barraco. Tibúrcio usufruía do direito de uma aposentadoria tranquila. No dia a dia, quando rareava o peixe em função do capricho natural do rio, da lua ou da maré, ele pegava sua espingarda 22 e se mandava para o mato, trazendo da fauna algo como: quati, macaco, mutum, socó-boi, dentre outros habitantes do jângal1, o suficiente para alimentação da família.
         Numa dessas incursões florestais, se deparou ao longe com uma onça pintada que pelo volume corporal já chegava ao limite máximo de crescimento. Ao voltar ele disse à Chica:
- eu “vu” matá ela!
- Que é isso “homi”, vucê vai ser um assassino pra mó di quê?!
- Nada disso muié! Eu vu matá a pintada.
- Quem é essa muié pintada que vucê vai matá? O que fui que ela “ti fiz”?!
- Sossega muié! Eu vu matá é a onça que eu topei no mato.
         A partir desse momento, Tibúrcio não pensava em outra coisa a não ser como traçar o esquema, mesmo que fosse de longo prazo: comprar uma espingarda de grosso calibre, criar um cachorro veloz, corpulento e feroz, capaz de desentocar a fera para que ele a matasse. Tibúrcio já começou com sorte, sua vizinha Ana Perua lhe deu de presente um cachorrinho, da barrigada da cadela “Borboleta” amarelinha com manchas brancas, cadela essa que ainda pequenina lhe foi ofertada pelo seu Oto, do cargueiro Bremen. De posse do cãozinho, Tibúrcio o “Batizou” logo com o nome de “Tufinho” (diminutivo de Tufão) e passou logo a alimentá-lo com leite de cabra e mais tarde uma dieta reforçada de carne crua, de caça e gado. Uma vez por semana, cozido de ossos e mocotó do açougue do tio Bené lá da Vila.
         Com a venda de um capado (porco) que há muito tempo vinha criando, comprou uma espingarda de grosso calibre. Então, todos os dias ao raiar do sol ele exercitava o tufinho em todas as modalidades, quando o percebeu que o Tufinho estava em “ponto de bala”, o colocou na trilha da fera. De cima de um taperebazeiro, onde construiu um mutá, com sua arma em punho viu seu herói canino seguir caminho à dentro na direção da cova, onde por certo deveria estar a pintada.
         Depois de um silêncio espectral da mata, lá do posto de espera ele ouviu um barulho fantástico e logo depois o explodir de um vendaval que soprava na sua direção levantando nuvem de folhagem e pó, produzida por dois vultos que passaram tão velozes que não deu para distinguir quem ia na frente, se era o cachorro ou a onça, impossibilitando-o de usar sua arma com receio de atingir o cão.
         Durante o dia, várias vezes ele presenciou aquele espetáculo sem uma definição final. Anoiteceu e Tibúcio regressou para dormir, enquanto Tufinho pelejava a noite inteira. No outro dia, Tibúrcio voltou ao seu posto de observação e esperou: ao longe, ele viu que dois vultos se aproximavam lentamente caxingando² ora para um lado ora para outro. Qual a surpresa do Tibúrcio: a onça vinha na frente e o tufinho atrás, ambos arrastando a barriga no chão. As pernas gastaram-se durante a corrida.
A caçada chegou ao fim, sem que para isso fosse gasta uma única bala. A onça foi morta a cacetadas, acredite quem quiser.


Glossário:

1.        Jângal - floresta ou matagal selvagem e denso. 2. Lugar ermo. 3. Usada como sinônimo de local inconveniente ou situação enrascada.
2.        Caxingar - Coxear

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