Não consegui desifrar todas as palavras, mais algumas coisas dão bem pra entender, o que achei legal é que essa carta é de 1943 e timbrada da empresa de meu bisavô
João Fortes, filho de João Nicolau Fortes, nasceu em 1917, em Igarapé-Miri - Pará, formou-se em contabilidade. Foi contador na reitoria da universidade federal, professor de desenho na Fênix Caxeiral e funcionário exemplar da Caixa Econômica, sendo um dos fundadores do CaixaPARÁ. Por muitos anos dedicou-se a desenhar e escrever contos e causos. Atualmente está com 93 anos de idade, com muita saúde.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Uma briga musical
Aproximava-se o esperado dia que marcava o inicio da festa do padroeiro da localidade (sítio) onde morava o Anacleto, instalado com a sua companheira Marieta, filhos e alguns netos no grande chalé de madeira de lei coberto com telhas de barro, às margens do Igarapé Grande. A casa se elevava do chão, uns três metros de altura, onde debaixo do assoalho se abrigavam em comunhão pacífica, galinhas, patos, perus, marrecos e paturis, dividindo espaço com os “aculturados”: mutum, jacamim e o pavãozinho. Dentro de casa os bicharocos de estimação: um casal de cachorros, um casal de gatos e mais dois personagens que não devem faltar em qualquer casa do interior que se preze: o papagaio Zecão e o macaco Pipoca. Completando a população xerimbabesca1, viviam também ali em completa harmonia, algumas cabras leiteiras, junto as quais não podia faltar o malcheiroso bode Alecrim. Mais distante o chiqueiro dos porcos.
Da porta de entrada da casa, uma oscilante prancha se estendia e topava a extremidade, no tronco de uma viçosa laranjeira de aguçados espinhos. Por aquela prancha, as pessoas entravam e saiam.
A data da festança se aproximava. Honorato vociferava nervosamente em tom de comando pró-ornamentação:
- José! Finca ali mais quatro varas... Duas de cada lado.
- Sim “sinhu”... Eu “vu” buscá o ferro de cova.
- Fernando! Pega aquelas bandeirolas. Trepa naquela escada e amarra a ponta do cordel na primeira vara.
- Aqui?
- Não. Mais em baixo.
- Tá bão?
- Estica mais.
Outra turma andava de pintar com cal as paredes, retocando a pintura do ano anterior, não esquecendo de lambuzar o tronco das frondosas mangueiras e altaneiros açaizeiros que circundavam o barracão. A alegria contagiava até os xerimbabos da casa, os quais executavam um coral de várias vozes, regido pelo galo e demais figurantes, dentre os quais os cachorros, o papagaio, a picota, e como não podia deixar de ser, o macaco Pipoca.
Ao iniciar-se o período festivo, a perspectiva era de que tudo deveria correr dentro da normalidade dos anos anteriores. Todas as noites, ladainhas laudatórias, se faziam ouvir no reboar das cantorias. No porto, encabrestadas, várias canoas flutuavam aguardando os donos, para o regresso de todos os dias no final da quadra festiva. Após a reza os romeiros degustavam chocolate com beiju-xica e broas de tapioca. No ar o cheiro de pólvora queimada dos foguetes que explodiam a cada instante alimentando o clima de festa. O Anacleto e consorte, extravasavam a alegria e o contentamento face a realização de mais um ano de congraçamento caboclo em homenagem ao santo, cujos gastos lhe custaram a economia amealhada2 -sem sacrifício- todo o ano exclusivamente para aquele fim.
Na antevéspera do dia da festa chegavam as três personalidades importantes e indispensáveis: Guita, Esperança e Anastácia, esbeltas e rechonchudas mulatas cheirando a priprioca e patichuli, as quais na retaguarda do casarão iriam pilotar o vasto fogão a lenha, repleto de panelões, frigideiras, alguidares, cupuru e demais artefatos culinários. Nesse exato momento estavam condenados à morte: patos, galinhas, perus e os capados.
Esses três dias finais de festa representavam o clímax da temporada, na qual homenageavam pirotecnicamente o santo desde o amanhecer. Às sete horas do último dia, atracou no beiradão uma canoa movida a jacumã, trazendo um grupo de pessoas mais importantes e desejadas no contexto da festança: os músicos. Esse afamado conjunto os “Bacuraus”, vieram como nos outros anos, contratados para acompanharem a procissão, e, durante a noite, poriam a funcionar um repertório variado, na promoção do forró até o sol raiar, mas o inusitado viria acontecer o que não ocorrera nos anos anteriores.
É chegada a hora da procissão. Com todo cuidado, Anacleto, pegou o santo e desceu pela prancha, colocando-o no andor3. Em seguida, o conjunto musical (em fila indiana) começou a descer pela prancha conduzindo os seus instrumentos musicais, e tocando o hino sacro “Queremos Deus”, tendo á frente o maestro mestre André, fazendo vibrar as cordas da sua rabeca. Devido a flexibilidade da prancha, esta adquiriu um movimento para cima e para baixo, tornando cada vez mais largos os passos das pessoas que caminhavam sobre ela. O que ocorreu teve certa similitude a várias batidas de carro numa estrada envolta por forte neblina.
O mestre André, não podendo controlar as suas passadas, e para não dar com a cara nos espinhos da laranjeira, aguentou o tranco com a sua rabeca, transformando-a numa autêntica sucata. O músico Jorge que vinha logo atrás sofrendo o mesmo efeito incontrolável do seu deslocamento para frente foi de encontro ao próximo, batendo a vara do seu trombone de Vara, na Cabeça do maestro. Dai por diante a orquestra entrou em ritmo de colisão, produzindo confusão entre os músicos, com desafinado solfejo4, numa briga lírica. O Jagunço deu sem música, uma clarinetada na cabeça do Jacaré porque lhe havia pisado no calo de estimação, o qual revidou com uma pistonada, que resvalou pegando na orelha do Zecão, que estava com o seu cavaquinho para dar uma cavaquinhada no seu antagonista. O Geraldo baterista, ao receber uma saxofonada nas costas desferida por Timóteo, se vingou enfiando o bombo na cabeça deste. O certo é que terminada a briga com as armas orquestrais os músicos brigantes passaram para o corpo a corpo na base do bofete, pescoção, rasteiras e bofetadas até que a turma do “deixa disso”, encabeçada pelo Anacleto, conseguiu apaziguar os ânimos.
Com a interferência do Anacleto, tudo serenou sem perda de sangue, graças a Deus. Enquanto isso, todos os romeiros por “si” “sol” já “fá”ziam “dó” ver “lá” no terreiro, todos esperando o “mi”lagre de ser “ré” iniciada a procissão apenas na cantarola, sem as notas musicais, as quais ficaram congeladas nos instrumentos quebrados sob o impacto da Cavalleria rusticana. Por ocasião da briga orquestral, as cozinheiras, foram promovidas a espectadoras da briga lá de fora, abandonando o lume do fogão lá de dentro, situação essa,propícia para que os bichanos e caninos avançassem além da fronteira da cozinha, contrabandeando para dentro dos seus buchos uma boa parte do rango, embora que com as barrigas cheias recebessem em troca uma dose de surra, instrumentada com colher de pau e cabo de vassoura.
Os músicos titulares meteram o que restou da viola no saco e se largaram rio abaixo. E agora? E o arrasta pé? Como vai ser? O Anacleto saiu à frente e determinou:
- Honorato! Convida ai uns quatro caboclos, vai ali na boca do igarapé Pacu e contrata o Mané Gato e o seu pau e corda para de noite levar a festança adiante.
Até após a ladainha e a seguir os comes e bebes, o forró varou a noite até o sol raiar. Para evitar futuros acidentes de prancha, Anacleto mandou construir uma escada larga, em madeira de lei. Com esse evento inusitado, ao que parece, -até aquela data-, em forró foi a primeira vez que uma briga ao invés de estourar entre os dançantes, explodiu entre os músicos, o que de fato é um espanto.
Glossário:
1. Xerimbabos – Bras. Norte Designação genérica de animal de criação. (No Paraná dizem mumbavo.)
2. Amealhar – Economizar.
3. Andor - Padiola ornamentada para levar santos em procissão.
4. Solfejar - Ler ou entoar música pronunciando somente o nome das notas.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Maximiano
Maximiano Cardoso. Este é o nome do cidadão igarapemiriense, alto, gordo, tez avermelhada (parecendo mais um alemão), expansivo, alegre, cujo bigode ao longe dava a impressão de ser espuma de cerveja. Possuía uma família numerosa, fazendo parte dela seis filhos: Maxiquinho, Manduquinha, Eládio, Elesbão, Cecílio e Jovita.Um dos maiores capitalistas de Igarapé-Miri, e como muitos outros de seus colegas industriais, explorava a fabricação de aguardente de cana.
Orgulhava-se de ter o melhor de todas as coisas que possuía: A maior fábrica, a melhor e mais veloz lancha a vapor e os maiores terrenos com as maiores lavouras de cana. O seu engenho intitulado Juarimbú, ficava às margens do rio do mesmo nome era um ponto de convergência de inúmeros fregueses, cujo trapiche ficava circundado de embarcações de todos os tamanhos, principalmente aos domingos. Além da lavoura de cana, abundavam em seus terrenos: cacaueiros e seringueiras. A sua lancha a vapor, importada da Europa, era a única existente no município com casco de ferro galvanizado (enquanto as outras eram de ferro comum) ostentava na proa o nome: TUCUMANDUBA. Além do timão e campa de manobra que as demais lanchas possuíam, tinha a mais um tubo acústico do comando à sala de máquina, pelo qual ele se comunicava com o maquinista para exigir mais pressão na caldeira e mais velocidade na máquina em caso de porfia.
Em termos de elegância ele não descuidava. Lembro-me que quando ainda era moleque o via vestido a caráter, dirigindo a sua lancha em viagens especiais de festas ou quando ia a alguma cidade como: Igarapé-Miri, Abaeté ou Belém, exibindo nessas ocasiões um sapato preto em couro de bezerro, terno branco (completo), inclusive gravata borboleta branca. Do colete pendia uma passadeira em ouro tendo na extremidade, um relógio algibeira no mesmo metal (possivelmente um Patek-Filipe). Para completar a elegante indumentária, ao topo da cabeça um chapéu Brunetto de palhinha fina. Lembro-me ainda do casamento de sua filha Jovita, que ao atravessarmos a baía na lancha Tucumanduba para irmos ao casório, enfrentamos tanto na ida como na volta, o rigor das ondas que se encresparam com o soprar da ventania. Mas valeu a pena, muitas iguarias comestíveis ao som de um conjunto musical abaeteense, o qual de noite dominou o balancê dos casais rodopiantes, em meio a um grande salão ornamentado.
Maximiano era muito conversador, loquaz e contador de causos e vantagens, levava a conversa a descambar para as inocentes e inofensivas mentirinhas, ao calor vindo do entusiasmo, talvez para testar o grau de absorção por parte de seus ouvintes ingênuos ou não, tornando-se desse modo um predecessor do nosso conhecido Coronel Pantaleão, só que ao invés de Terta, Maximiano nomeou o seu filho Manduquinha.
Uma vez, o meu cunhado Antônio, foi ao engenho Juarimbú para comprar umas frasqueiras de cachaça para revendê-las engarrafadas no seu comércio. Ao chegar, foi euforicamente recebido pelo Maximiano. Enquanto eram providenciados o enchimento dos garrafões e a papelada fiscal da transação, o comerciante entabulou1 com o meu cunhado uma animada conversação:
- Com a idade que tenho hoje, já me considero alquebrado2, com o tanto que fazia anteriormente. (disse Maximiano).
- Qual nada. Você continua a ser um homem forte. (retrucou Antonio)
- Estas vendo aquela talha patente? Pois bem eu colocava a mesma nos meus ombros, subindo aquela escada ali encostada, e engatava o gancho naquela viga. Não é Manduquinha?
- É sim senhor.
- De fato você tinha mesmo muita força.
- É Antonio. Não ficava só nisso. Quando eu era mais novo, eu carregava garrafão de frasqueira e meia com a maior facilidade. Lembro-me que um dia, ao jogar o garrafão no ombro, ele escapuliu para trás, eu me virei rapidamente e consegui apará-lo antes que chegasse ao chão. Não foi Manduquinha?
- Foi papai.
Com mais esta o meu cunhado despediu-se, mas não engoliu a história daquela frágil escadinha a suportar os 90 quilos do corpo e mais 50 quilos da talha (de ferro e mais correntes) difícil de ser carregada por um só homem, e nem naquela mágica de aparar um garrafão cheio escorregado para trás com uns 40 quilos.
Maximiano se dizia orgulhoso de sua lancha, que era a menina dos seus olhos em razão dos reais predicados, inclusive a de ser a mais veloz dentre as demais. Quando ele ia á cidade de Abaeté, desafiava os proprietários das outras lanchas ancoradas no porto, esperando a enchente para zarpar. Sempre trazia no porão de proa, achas de lenha de alto poder calórico na combustão, como por exemplo: Mariximbé e Pacapeuá, para enfrentar competidores na hipótese de uma porfia.
- Colega, você vai largar os cabos agora? Dizia Maximiano.
- Não, só mais tarde!
- Vamos porfiar?
- Quem sou eu em querer que a minha lancha porfie com a sua.
A Tucumanduba saía em cima da enchente e, obedecendo a vontade do seu dono, ficava por trás da “ilha da Pacoca” escondida como uma serpente pronta para dar o bote. Quando uma das lanchas passava pela ilha, a Tucumanduba aparecia jogando sobra de vapor pela descarga, apitando em sinal de desafio e picardia, a fazer evoluções na frente do oponente. Quando o colega aceitava a disputa, fatalmente como sempre acontecia, Maximiano ganhava, e a vitória constituía para ele uma glória.
O seu entusiasmo ao referir-se á sua lancha Tucumanduba era tão grande que atingia as raias de incontrolável exagero, tanto que em certa ocasião, conversando com um seu colega engenista, que também possuía uma modesta lancha, orgulhosamente disse:
- Pois é meu amigo. A Tucumanduba, não teme concorrência face a sua potencialidade.
- É, de fato com aquela sua máquina potente de tripla expansão, não tem adversário a sua altura.
Com esse elogio, Maximiano estufou o peito como um peru bronzeado e mandou essa:
- Numa das viagens que eu fiz na Tucumanduba, regressando de Belém, a maré já vazava uns 15 centímetros abaixo da preamar e eu precisava passar com folga o canal de Igarapé-Miri.
Apanhei 200 achas de “magonçalo” num porto próximo a capital e larguei os cabos.
- E conseguiste?
- Escuta ai. Mandei o maquinista puxar o máximo que a máquina pudesse dar, e quando passei na cidade do Moju, permaneciam 15 centímetros de vazante.
- Uma vantagem rara. Não é?
- Exatamente. Passei o canal, e quando passei pela cidade de Igarapé-Miri, permaneciam os 15 centimetros de vazante.
- Puxa! Uma façanha inédita.
- E segui em frente. Mandei puxar o máximo de força. O certo é que, quando cheguei a foz o Juarimbu, teria que contornar o baixão de areia, gastando mais tempo. Então, aproveitando o volume d'água que a lancha deslocava fiz com que ela passasse por cima do baixão. entrando definitivamente no rio acima até o porto do engenho.
- Posso dizer que essa vantagem foi uma façanha heróica.
- Exatamente. E olhe lá: ao desembarcar, olhando lá de cima do trapiche, notei que a lancha resfolegava ofegante expelindo fumaça pelas “narinas” Não foi Manduquinha?
- Foi meu pai.
- Posso te dizer que foste mais herói que a própria lancha. Tu mereces uma medalha de ouro.
Despediram-se e separaram-se.
Por muitos anos ainda viveu aquele homem bondoso. Por muitos anos aquela lancha como branco cisne, arrostava com o seu “bico” aquele bigodão de água, rebentando branca-espuma. Quando o nosso Maximiano morreu, foi como se uma grande árvore frondosa fosse derrubada. Abriu-se uma imensa lacuna, e um grande império foi pulverizado pelos filhos (como sempre acontece), que não se uniram numa sociedade solidária, para preservar o nome do pai e um patrimônio que despencou a ladeira e água abaixo, e hoje deve existir no local apenas uma tapera.
Glossário:
1. Entabulou – travar (conversa).
Alquebrar – debilitar, enfraquecer
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Guarajuba
Guarajuba, segundo a classificação ictiológica é um peixe do mar cujo sabor é desagradável. Mas o que de fato eu quero aqui focalizar não é peixe nem peixinho, é um homem de carne e osso que em certas ocasiões se transforma em um ser desagradável.
Caboclo forte como um touro, tinha como meio de subsistência a profissão de prático fluvial, a pilotar embarcações motorizadas de pequena e média cabotagem que navegavam nos paranás¹ da vasta Amazônia. Com invulgar competência (de palmo a palmo), conhecia os profundos e rasos canais e os movediços baixios submersos na calha sedimentar do Rio-mar. Em razão de sua experiência no ramo da praticagem, sempre foi disputado pelos armadores da região.
Guarajuba vidrava-se em dançarás², comuns nos beiradões dos rios. Ao ouvir o pipocar de fogos, marcava o rumo e seguia na direção dos mesmos, chovesse ou ventasse, para castigar o samba umbigado com as morenas da paróquia. Um gênio* pacato adormecia no aconchego dos seus avantajados músculos, aparentando uma cândida docilidade, porém explodia assim que viesse a bebericar a maldita pinga: o espinafre estava para o Popeye assim como a cachaça estava para o Guarajuba.
Em certa ocasião, desembarcava para curtir um descanso restaurador, no que aproveitando o embalo, balançou o esqueleto num forró realizado à margem do Rio Maiauatá próximo à baía de Marapatá. Ele ouviu os fogos, calculou as coordenadas, pegou a sua bússola e dirigiu-se para lá na expectativa de apertar entre os seus músculos as cabrochinhas cheirosas de priprioca, patichuli e jasmim de Santo Antônio.
O local da festança centrava-se num barracão de palafita, cobertura de palha, assoalho de madeira e frágeis réguas de jupati formando as divisórias. A praia aluviônica de constituição lodosa e sujeita ao regime diário das marés, sustentava a base da casa. Na realidade era um baixio coberto de aningais. No “teatro” da festa abre-se um ambiente iluminado a porongas³ de quatro pavios à querosene, sendo que no primeiro ato reza-se a ladainha. No segundo ato, o estrugir da foguetaria, marcando o início do forró o qual encena a parte profana da noite, onde os músicos põem a vibrar os instrumentos aplicando chicotadas nos dançarinos apáticos, num ritual frenético mandando um cachorrinho apimentado do naipe de o “tico-tico no fubá”.
Eu estava presente nessa festa. Emprestamos um rebocão com tolda, e contratamos dois remeiros de faia que impulsionaram a embarcação rumo à festa, levando-me com dois amigos, a cozinheira da minha irmã e a prima Corina, que seguiu sob protesto da mãe, pois estava de resguardo do parto. Contrariando a proibição materna assim mesmo foi, toda empacotada em um lençol, meias compridas, sapato e chapéu, tinha que evitar pegar sereno, pisar n'água e livrar-se de vento encanado, prescrições essas recomendadas pelas velhas parteiras do interior.
Chegando ao recinto interno do barracão, avistei o Guarajuba a demonstrar na máscara da face os efeitos da ingestão de alguns goles de pinga. A festa já ia bem animada, enquanto lá fora as estrelas brilhavam num céu azul sem mantas de algodão. A água enchente banhava a praia, passando por baixo do assoalho.
Lá pelas tantas que o relógio marcava, pisaram no pé do Guarajuba atingindo seu velho calo de estimação, o que veio a se transformar no estopim de quem já marcava 60 graus de carraspana, fazendo despertar um adormecido gigante para distribuir gratuitamente a gregos e troianos saraivada de bofetes. A música parou abafada pelo reboar dos socos, quedas, rasteiras bofetões, enquanto os músicos se escafederam para salvar o lombo e os instrumentos. No panorama aguerrido do salão, apenas os santos do oratório escaparam de apanhar porque ficaram quietos e não protestaram.
O brigante líder, fora do seu eixo de equilíbrio emocional, como o King-Kong levantava e aparava quem surgisse em sua frente arremessando-os contra as frágeis paredes de jupati, atravessando-os da sala para a varanda. As paredes ruíram, o espaço interno da casa transformara-se num grande ringue de briga. Por falta de espaço, as mulheres (apavoradas) espalharam-se pela praia de lama com água pelos joelhos, procurando suas montarias no intuito de rumarem na direção de suas casas.
A briga continuou madrugada adentro, cuja arma felizmente era apenas o braço. Como tinha ido à festa para dançar e não para assistir luta livre, reuni os companheiros para o regresso, faltou apenas a Corina, que procuramos e não encontramos às proximidades da briga e assim mesmo, resolvemos ir embora sem ela. Ao chegarmos a bordo, lá estava a Corina, encolhida debaixo da tolda.
- Ué! Corina. Furaste a briga? - perguntei -
- Qual nada, eu vim por debaixo do assoalho, com água até o umbigo.
- Posso então dizer que o teu resguardo de parto foi para o espaço.
- Infelizmente foi.
Os brigantes festeiros já exaustos de tanto brigarem, quedaram-se sonolentos, ostentando como troféu apenas baques, equimoses, raladuras e luxações sem, entretanto ter havido fraturas a lamentar. O que ocorreu após o meu regresso só tive conhecimento posteriormente através do relato feito pelo dono do barracão. Soube que o clarão amortecido da madrugada anunciava o alvorecer naquele ambiente destroçado, em que o silêncio a todos dominava inclusive os “brigadeiros” que permaneceram deitados de barriga para cima no chão da festa. Tudo parado, nem um fiapo de vento, apenas o grasnar rouquenho das ciganas no aningal. Nem um galo para anunciar o amanhecer. De galos apenas aqueles que das cutiladas surgiram nas cabeças dos brigantes.
O rescaldo dessa memorável briga ganhou estória nos anais de domínio publico. Guarajuba e seus colegas de briga ainda se refaziam da refrega do desforço4, ouviram algo quebrando o silêncio ambiental vindo do porto do barracão, todos se levantaram: brigador e participantes. De pé, todos viram quando um batelão encostou à borda do trapiche. Salta o agente de polícia daquele distrito, que desembrulhando a língua foi logo dizendo:
- Estão todos presos!
- Quem, nós? .
- Exatamente. Todos para bordo do "Pai da Barra".
Pai da barra foi um batelão grande, apropriado para transportar palha de ubuçu de Igarapé-Miri para Belém, palha essa apropriada para cobertura de barracos. Essa embarcação pertencia a Antonio Monteiro Lopes, mais conhecido como Antonico Arara, proprietário da Casa Ararinha, grande empório comercial e porto de lenha ali localizado para abastecer os navios-gaiola da linha amazônica.
Só que naquele evento de festa fracassada, ao invés de palha, a carga a transportar seria festeiros briguentos. O agente, que morava às proximidades da festa (como bom farejador) deitado em sua rede, sentiu naquela noite um cheiro de briga, e como precisava faturar algumas pelegas de cinco mil reis, apressou-se em alugar o Pai da Barra, embarcação movida a braço humano, com duas faias de popa em movimento de ginga.
Com a guarnição completa de quinze presos, o Pai da Barra zarpou pela manhã, a percorrer (contra a maré) até a cidade, cuja distância percorrida por uma embarcação motorizada gastaria duas horas de viajem. Durante a viagem punitiva, dois a dois presos, se revezavam na ginga dos faiás, debaixo de um sol acolhedor. Ao chegarem à cidade os presos desembarcaram e seguiram para delegacia. O delegado resolveu não enxadrezar os valentões, mesmo porque na briga não houve morte e nem ferimentos graves. A punição ficou por conta da viagem forçada acrescida do pagamento da carceragem e os cinco mil reis destinados ao agente de polícia, dinheiro esse que deixou de ser gasto pelos brigadores com as namoradas naquela inusitada festa.
Outra maratona de regresso estava programada para os brigadores não fosse a sorte de um rebocador que saindo da cidade com destino ao município de Cametá se prontificasse a rebocar o Pai da Barra até o porto Ararinha. Essa lição deveria servir de exemplo para que o Guarajuba em festas futuras baixasse a juba, para não virar uma fera quando o néctar de alambique tentasse agir no seu comportamento sociável.
Glossário:
1. Paranás – Bifurcações em rios.
2. Dançarás – Bailarico.
3. Poronga – Tipo de lamparina abastecida com querosene.
4. Desforço – Reparação de afronta (por meio de força). = Vingança.
*Personalidade.
*Personalidade.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O tufinho
Uma história do mundo da fantasia, mostrando que nesta Amazônia tudo pode acontecer em se tratando até mesmo de manifestações oriundas de lendas milenares onde surgem sacis, boitatás e mapinguaris. A história que vou reproduzir ao meu modo, não se trata de lendas ou crendices que percorrem caminhos primevos até hoje. Vejamos.
À margem de um rio tocantino morava o Tibúrcio, pacato pescador junto à companheira Chica e o velho cão Cavaco, que sempre deitado a um canto do barraco. Tibúrcio usufruía do direito de uma aposentadoria tranquila. No dia a dia, quando rareava o peixe em função do capricho natural do rio, da lua ou da maré, ele pegava sua espingarda 22 e se mandava para o mato, trazendo da fauna algo como: quati, macaco, mutum, socó-boi, dentre outros habitantes do jângal1, o suficiente para alimentação da família.
Numa dessas incursões florestais, se deparou ao longe com uma onça pintada que pelo volume corporal já chegava ao limite máximo de crescimento. Ao voltar ele disse à Chica:
- eu “vu” matá ela!
- Que é isso “homi”, vucê vai ser um assassino pra mó di quê?!
- Nada disso muié! Eu vu matá a pintada.
- Quem é essa muié pintada que vucê vai matá? O que fui que ela “ti fiz”?!
- Sossega muié! Eu vu matá é a onça que eu topei no mato.
A partir desse momento, Tibúrcio não pensava em outra coisa a não ser como traçar o esquema, mesmo que fosse de longo prazo: comprar uma espingarda de grosso calibre, criar um cachorro veloz, corpulento e feroz, capaz de desentocar a fera para que ele a matasse. Tibúrcio já começou com sorte, sua vizinha Ana Perua lhe deu de presente um cachorrinho, da barrigada da cadela “Borboleta” amarelinha com manchas brancas, cadela essa que ainda pequenina lhe foi ofertada pelo seu Oto, do cargueiro Bremen. De posse do cãozinho, Tibúrcio o “Batizou” logo com o nome de “Tufinho” (diminutivo de Tufão) e passou logo a alimentá-lo com leite de cabra e mais tarde uma dieta reforçada de carne crua, de caça e gado. Uma vez por semana, cozido de ossos e mocotó do açougue do tio Bené lá da Vila.
Com a venda de um capado (porco) que há muito tempo vinha criando, comprou uma espingarda de grosso calibre. Então, todos os dias ao raiar do sol ele exercitava o tufinho em todas as modalidades, quando o percebeu que o Tufinho estava em “ponto de bala”, o colocou na trilha da fera. De cima de um taperebazeiro, onde construiu um mutá, com sua arma em punho viu seu herói canino seguir caminho à dentro na direção da cova, onde por certo deveria estar a pintada.
Depois de um silêncio espectral da mata, lá do posto de espera ele ouviu um barulho fantástico e logo depois o explodir de um vendaval que soprava na sua direção levantando nuvem de folhagem e pó, produzida por dois vultos que passaram tão velozes que não deu para distinguir quem ia na frente, se era o cachorro ou a onça, impossibilitando-o de usar sua arma com receio de atingir o cão.
Durante o dia, várias vezes ele presenciou aquele espetáculo sem uma definição final. Anoiteceu e Tibúcio regressou para dormir, enquanto Tufinho pelejava a noite inteira. No outro dia, Tibúrcio voltou ao seu posto de observação e esperou: ao longe, ele viu que dois vultos se aproximavam lentamente caxingando² ora para um lado ora para outro. Qual a surpresa do Tibúrcio: a onça vinha na frente e o tufinho atrás, ambos arrastando a barriga no chão. As pernas gastaram-se durante a corrida.
A caçada chegou ao fim, sem que para isso fosse gasta uma única bala. A onça foi morta a cacetadas, acredite quem quiser.
Glossário:
1. Jângal - floresta ou matagal selvagem e denso. 2. Lugar ermo. 3. Usada como sinônimo de local inconveniente ou situação enrascada.
2. Caxingar - Coxear
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
No Caminho da Escola
Eu devia ter na época uns doze anos, morava com a minha irmã mais velha Alice e, seu esposo Antonio Pinheiro Lopes, os quais foram para mim verdadeiros pais. A casa onde morávamos era um barracão de madeira (bem construído) coberto com palha de ubuçu, ás margens do Rio Maiauatá. A referida residência ficava a uns cem metros da casa e engenho Sempre Viva, pertencentes ao outro cunhado Manduca Lopes, casado com minha irmã Antonia. Uma passarela de tábuas ligava as duas residências.
Eu, naquela cidade vivia as delícias da imaturidade, própria da adolescência que logicamente ainda ignorava a existência do labirinto que teria de percorrer no futuro, por enquantotudo era luz, alegria, brincadeira. Mas não era só isso. Algo faltava para formação do conhecimento intelectivo; a instrução. Como meu cunhado viajava, minha irmã se encarregou de mandar-me à escola.
Todas as manhãs, após o café com bolachas eu e alguns outros menino filhos de operários, seguíamos em canoas jacumã na direção da escola, que ficava a meio estirão de distância. Dependendo da maré, alguns dias remávamos a favor e outro contra. Eram belas as manhãs quando cedo nos dirigíamos à escola. Uma névoa translúcida envolvia o ambiente bafejado pela brisa aromatizada vinda das flores silvestres que caiam das árvores ribeirinhas e flutuavam na torrente. Facãozeiros, Bracatingas, Pracaxis, Mamoranas, Mangues, Aturiais e Siriúbas contribuíam, despejando na maré estamens de pétalas. Outros perfumes aromatizavam o rio, vinham do Cipó baunilha, Bromélias, Cataleas e Açunenas. O ar era livre de poluição, leve e respirável a encher nossos pulmões.
Ao chegarmos “Trapiche Hipólito”, amarrávamos as canoas à escada e nos dirigíamos à sala de aula, onde nos esperava a professora Sofia (misto de bondade e inteligência). A escolinha (como mãe coruja) agasalhava sob suas asas os filhos de operários e quem mais quisesse se alfabetizar, sem ônus para os pais. Mesa comprida com bancos laterais, quadro negro e a mesa da professora. Da minha maletinha tirava o livro, caderno, lápis, borracha, sem esquecer a célere tabuada, caneta e tinteiro. Para os mais atrasados, cartilha do A B C, caligrafia e numeração. Para os mais adiantados, ditado, tabuada, as quatro operações e traslado.
As minhas cópias sempre as mesmas, eram tiradas de dois excelentes livros; Coração de Criança e Contos Pátrios, este último de Olavo Bilac e Coelho Neto. Do Coração de Criança ainda lembro-me de fragmentos que ainda restam na memória:
“Como te comportaste mal ontem à mesa meu filho! Encheste demais o teu prato, acotovelaste o Sr. Carvalho e repetiste a sobremesa. Nunca mais procedas assim, quando te servires faze-o com sobriedade...”
De Contos Pátrios copiava Navio Negreiro:
“Sereno é o mar, o vento sopra de feição e o brigue veleja garbosamente sob um céu azul onde não passa a mais ligeira nuvem. Quem geme? De onde vem tão sentido lamento? É a carga do brigue, que veio dos mares da África cheio de gente negra...”
Já adulto, quando fui estudar em Belém, procurei esses livros em todas as livrarias e sebos, mas não tive a sorte de encontrá-los inclusive uma cartilha de Felisberto de Carvalho, muito usada à época por alunos primários cujas letras graúdas separavam as sílabas nas cores preta e vermelha. Lembro-me ainda da gramática de Paulino de Brito, aritmética e geometria de Tito Cardoso Oliveira. Sem pensar no futuro, não tive o cuidado de guardar essas preciosidades.
Infelizmente a minha querida mestra Sofia já descansa em paz no reino de Deus. Eram doze irmãos de uma grande família, cujo chefe Manoel Lopes Sampaio e esposa Maria Lapa Sampaio deram ao mundo: João, Sofia, Ademar, Altino, Dulcídia, Dulcimar, Aladim, Bilú, Zuila, Diquinho e Vivi.
Trapiche Hipólito era um estabelecimento constituído de um casarão, anexo ao engenho de fabricação de aguardente, pertencente ao casal. O trapiche armazenava lenha para abastecer os navios-gaiola que demandavam ao Baixo Amazonas.
Passaram-se alguns meses, minha mãe mandou buscar-me para logo em seguidaseguir para a cidade de Abaeté, onde deveria concluir os estudos primários no grupo escolar, com vistas ao diploma que me levaria a ingressar no ginásio, onde deveria cursar os estudos secundários.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
CEF
As primeiras agências pioneiras do interior foram instaladas: uma no baixo Amazonas, duas no Tocantins e duas no eixo ferroviário Belém-Bragança (quando ainda existia a estrada), tendo como sedes as cidades de Santarém, Cametá, Abaetetuba, Capanema e Bragança. Esse grupo de agências proliferou de uma semeadura espalhada em terras férteis pelo Dr. Renato Franco. Ao germinar essa interiorização da CEF (Caixa Econômica Federal), os resultados se fizeram emergentes, para alimentar o orgulho daquele grande administrador.
Sem demérito aos demais colegas gerentes do interior, destaco três economiários1 que tocaram mais de perto a minha sensibilidade preferencial, foram eles: Osvaldo da Costa Silveira, Sílvio Pimenta e Odonaldo Cardoso (que será relatado em outro momento). Osvaldo Silveira, ao incorporar-se às hostes economiárias, começou pela agência de Cametá e de lá voltou a Belém, onde trabalhou comigo quando eu exercia o serviço de registro contábil das agências do interior, classificando o movimento operacional das mesmas. Osvaldo, muito aprendeu comigo em termos gerenciais, aprimorando ainda mais o que de fato ele já sabia.
De Belém, foi transferido para a agência de Abaetetuba, onde permaneceu um ano até quando surgiu um problema na agência de Bragança em consequência dos desmandos financeiramente delituosos ali praticados. Osvaldo foi então convocado para arrumar aquela casa e ficar efetivamente na gerência. As irregularidades, que acabaram por provocar a transferência aqui relatada, foram de autoria do gerente Bocage, emérito contador de anedotas que lhe valeu o apelido, sendo que grande distância o separa do poeta português Manuel Maria Barbosa Du Bocage.
Em 1962 o Osvaldo se transfere definitivamente para Belém, lotado na Carteira de Depósitos, na ocasião como caixa, até se aposentar já como caixa-executivo. Citar o nome de Osvaldo Silveira, entre os colegas economiários, é o suficiente para colhermos os maiores encômios como atestado conceitual de sua honradez e probidade.
E o Silvio Pimenta? O Silvio teve o privilegio de nascer na terra dos Romualdos, dos Mendonças, dos Parijós e de outros conterrâneos ilustres como Gentil Bittencourt, Enéas Martins e Ângelo Custódio. Os cametaenses se dizem inteligentes ao ponto de montarem relógios debaixo d'água. Eu acho existir lógica nessa afirmação, porque uma pujança intelectiva desse jaez deve vir das vitaminas do capilé, do chocolate, produtos originários do cacau, e da caldeirada do mapará, peixe saboroso e rico em proteínas e fósforo.
Na terra do Pimenta, saboreia-se entre outros acepipes, o tacacá com pimenta, principalmente na época junina, quando mais forte é a religiosidade e a devoção de alta contrição frente do padroeiro S. João Batista, festa religiosa que atrai romeiros de toda a região tocantina e até mesmo de Belém.
Depois desse modesto preâmbulo, cabe a mim por justiça escrever algo sobre a personalidade desse colega que foi o primeiro gerente da agência de Cametá, até a ascensão do Osvaldo Silveira na ocasião em que surgiram os desatinos do tesoureiro Braga, o qual foi sumariamente demitido.
Com a chegada do novo gerente, o Silvio foi transferido para Belém, deixando a sua agência, que administrou com eficiência, de 1951 a 1961. Em Belém, foi lotado na seção de Material, por onde se aposentou. Silvio lutou muito para manter incólume a sua inabalável honestidade, em razão dos estilhaços vindos da explosão da granada Braga. Felizmente nenhum estilhaço o atingiu.
Glossário
1. ¹. Economiário: funcionário da Caixa Econômica Federal.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Dois Irmãos
Eram dois Irmãos inseparáveis: Osório e Manoel. Ambos trabalhavam em canaviais no município de Igarapé-Miri, onde moravam. Tanto Osório como Manoel pertenciam a uma “seita” que professavam com devoção e submissão, nela adoravam três “divindades”: Festa, Cachaça e Baralho. De madrugada, antes de irem para o canavial jogavam goela abaixo um avantajado “mata bicho” calibrado na pureza alcoólica de 21 graus G L.
Osório, baseado no físico avantajado de seus bíceps e demais condições musculares de seu esqueleto, promovia arruaças nas festas após a ingestão etílica de vários goles de pinga. Era o mais prosaico dos dois, gesticulava, papeava a contar lorotas, principalmente quando em sua cachola fervilhava o efeito da “mutamba”.
Lembro-me de uma ocasião na qual minha irmã Alice que criava muitas galinhas caipiras no sítio chamado Atividade, onde o casal residia, meu cunhado tinha como ganha-pão uma loja de secos e molhados. Além de outros afazeres domésticos, Alice tinha o seu plantel de galinhas, patos e perus, que para ela era autêntico lazer. Acontece, entretanto que os gaviões rondavam o terreiro onde as penosas ciscavam o chão o dia todo após a ração de milho. Eram esquadrilhas de gaviões, rasgando os céus daquele beiradão do Rio Maiauatá em missão suicida fazendo acrobacias, e por vezes um deles flechava em parafuso, capturando alguma franga para saboreá-la num saboroso repasto.
Como a melhor defesa é o ataque, o meu cunhado usando uma estratégia cabocla, resolveu pregar uma peça num astuto gavião, grande conhecedor da localização do galinheiro que era o Q.G. do general galo. O rapino, vez por outra capturava uma galinha. Para conseguir aprisionar aquele audacioso “falconídeo japacanim” inimigo sem gastar bala, armou uma arapuca no terreiro em frente ao comércio, usando um paneiro desses que são usados para prender patos. Sob o paneiro foi colocado um apetitoso frango como isca.
Não deu outra, o gavião era um cara de pau que desta vez ao invés de vir pelo ar em vôo rasante, ele aterrissou longe do pasto e veio de mansinho em marcha cadenciada até a “casamata1” traiçoeira, onde por força do destino ficou aprisionado.
O meu cunhado para se vingar do rapino, que lhe havia afanado várias galinhas, ao invés de matá-lo resolveu submetê-lo a tortura psicológica: amarrou um cordel numa das pernas do malandro, espalhou milho sobre ele e soltou todas as galinhas. Envergonhado e impotente, se estampou na cara do gavião um semblante de frustração e tristeza. A intenção do meu cunhado era soltá-lo, para com a lição que recebeu aprendesse a respeitar as galinhas alheias. Acontece, entretanto que inesperadamente chegou o Osório, cheio da “mutamba”, no justo momento do espetáculo gavionístico e cambaleante. Disse categoricamente:
- Gavião comendo as galinhas do meu patrão? Isso nunca!
Pulou da ponte para o terreiro, e com uma só dentada decepou a cabeça do prisioneiro alado e começou a comê-lo ainda vivo, com o sangue do animal a escorrer-lhe pelos cantos da boca. O meu cunhado não gostando daquela cena repugnante, tirou o gavião das mãos do Osório jogando para bem longe, terminando assim o “gavianocídio”.
Reportando-me agora a um período de idos tempos, havia a proibição do jogo de azar, estabelecida por dispositivo de uma Lei federal, e levada muito a sério pelas autoridades constituídas. Osório e Manoel, que eram vidrados em carteado, estavam jogando baralho à sombra de um cacaueiro existente na época aos fundos do engenho do meu pai. Bem escondidos de elementos perturbadores. Quando um agente de polícia desses competentes farejadores de transgressores da Lei pintou no esconderijo, flagrando-os arriscando no baralho míseros “pacurus”. Inútil foi querer convencer o agente de que a aparente jogatina não passava de jogo de paciência, cujo papo não convenceu o policial. Lá se foram os dois presos com passaporte e destino ao xilindró da cidade.
Lá chegando, na presença do delegado que era um tenente reformado da Polícia Militar. Osório tomou logo a dianteira e disse:
- Seu capitão Delegado, não prenda nós. Nunca “fumo” preso.
- Eu cumpro a Lei. Vocês sabem que o jogo de azar está proibido.
- Seu delegado (disse Osório). Eu tenho aqui no “burço” cinquenta mil reis, pra vossa “insolência” nos “sortá”.
- Eu não aceito propina. Guarda, recolhe os dois!
Sem outro jeito a dar, os dois sentaram-se no centro do quadrilátero do xadrez, Osório puxa do bolso o velho baralho amigo e trançam um animado pacau.
O carcereiro correu à sala do delegado e disse:
- Os “homi” estão jogando baralho lá no xadrez.
- A Lei manda prender. Uma vez presos, daí para frente nada mais posso fazer.
Durante toda noite, de propósito, não deixaram o carcereiro dormir.
- Ei carcereiro, já que não tem cachaça me traz uma cuia com água.
- Carcereiro, deixa eu sair pra “uriná”.
- Carcereiro, eu estou com dor de barriga. Eu quero ir à privada, disse o Manoel.
- Carcereiro, eu quero ir à privada, disse o Osório.
O carcereiro, já sonolento, disse:
- Eu não abro mais o xadrez.
- Se não abrir eu faço aqui mesmo.
- Não, não! Eu já vou abrir.
Quando amanheceu o dia, o carcereiro foi ao delegado e implorou que mandasse os prisioneiros embora. Terminado o período, segundo o qual os dois deveriam ser libertados, o delegado foi até ao xadrez e determinou ao carcereiro:
- Abra o xadrez!
- Pra quê? Perguntou o Osório.
- Vocês estão livres.
- Seu delegado. Eu fiz tudo pra não ser preso e o “sinhú” não “iscutú” agora nós não “queremu” sair daqui.
- Por quê?
- “Pruquê” aqui não “trabalhemo”, nós “cumemo” de graça, nós “juguemo” o nosso baralhinho e de sobra ainda “inchemu” o saco do carcereiro.
Para que os dois abandonassem o xadrez, tiveram de ser carregados e despejados no meio da rua, terminando assim a mordomia prisional dos dois.
Depois dessa lição, os irmãos voltaram para suas casas e continuaram como sempre a beber, jogar, dançar e brigar nos forrós.
Passaram-se alguns anos, e um dia apareceu o Osório, já combalido pelo efeito deletério do álcool:
- Patrão, a minha “canua” é “gita” e eu quero que “vucê” me empreste uma maior para eu ir à Abaeté, arrancar este meu dente “pudre”.
- Tudo bem. Leva aquela ali que está amarrada naquele moirão.
Lá se foi o Osório. Não passou duas horas ele já vem voltando. O meu cunhado lá com os seus botões se pergunta: Ué! Uma viajem a Abaeté (ida e volta) em canoa a remo leva um dia inteiro, dependendo da maré.
- Osório. O que foi que houve? Não fostes mais?
- É que eu “sartei” na vila Concórdia para beber um gole e trancei um jogo de baralho com o “Polvarinho” e de gole em gole, acabamos brigando. Ele me deu um murro na cara arrancando o meu dente. “Fui” até “bão” porque economizei o dinheiro do dentista.
Glossário
1. Casamata: Bateria abobadada.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
“Doutor” Isidoro
Negro, de mediana estatura, barrigudo, pernas arqueadas, usava chapéu preto de feltro surrado e nos pés um chinelo de couro. Registrava no seu currículo profissional o diploma de analfabetismo da “Universidade do rio Anapu”, município de Igarapé-Mirí. No contato que mantinha com qualquer pessoa, exigia dela que lhe chamasse de doutor, chegando mesmo a não atender se o paciente não antepusesse ao seu nome a titulagem de doutor. Quando chamado, viajava rio abaixo ou acima numa canoa com tolda, que era impulsionada a remo de faia por intermédio de um remeiro seu empregado. Se no trajeto alguém da margem do rio o chamasse:
- Isidoro... Ei, Isidoro!
Ele dizia ao remeiro:
- Rema, rema. Não para de remar!
- Ei, Dr. Isidoro, Dr. Isidoro!
- Volta, volta! Vamos atender a pessoa que me chamou.
Todos os moradores daquela região conheciam o seu reboquinho vermelho de tolda amarela, e se alguém estivesse doente o chamavam aos gritos. Se ele passava do outro lado do rio acenavam com uma toalha até ele atender.
Quando viajava, sempre levava um caixote de medicamentos do seu laboratório de fundo de quintal a base de ervas cozidas (ditas medicinais), acondicionadas em garrafas de quartilho1 e meio, fechadas com rolha de buruti. O “doutor” também receitava remédios alopáticos sem, entretanto conhecer a bula, pois não sabia ler, os conhecia apenas pelo rótulo ou formato do recipiente, tanto que um rótulo retratando um homem com um bacalhau às costas, já sabia que era Emulsão de Scott, o mesmo acontecendo ao ver o rótulo apresentando um homem de paletó coçando as costas com o guarda-chuva, logicamente só poderia ser o Mitigal, o Biotônico Fontoura era nacionalmente conhecido pelo rótulo, até hoje quando retornou ao mercado farmacêutico após muitos anos de ausência.
Um dia, a minha mãe adoeceu e contra a sua vontade o meu pai mandou buscar o Isidoro, que passou a noite em casa. Ao chegar colocou o seu caixote de remédios dentro do quarto da doente. De madrugada as rolhas dos recipientes começaram a ser expulsas explosivamente, pressionadas pela fermentação. Como não se tratava de champagne, pela manhã a minha mãe obrigou o meu pai a despachar o Isidoro para bem longe.
Uma das insipientes cartadas que lhe deu certa notoriedade foi quando o Antonio Lopes da Costa o chamou para atender a esposa. Antonio Lopes da Costa, conhecido também como Antonico Arara, mantinha uma casa comercial muito bem sortida e um grande trapiche onde armazenava a céu aberto, uma montanha de lenha para abastecer os navios-gaiola que singravam a Amazônia, transportando gente e explorando o comércio fluvial. Esse importante porto chamava-se “Ararinha” ou “Casa Ararinha”.
Num dia não muito feliz, estando a esposa do Antonico grávida, cuja delivrance2 se complicou a ponto da criança ficar ameaçada a não nascer no tempo de um parto normal. Antonico mandou buscar em Abaeté o médico Dr. Lindolfo, que logo de início aplicou todos os medicamentos apropriados e a criança nada de nascer, pondo a casa em polvorosa. Antonio já desesperado, andando da casa para o trapiche e vice versa, até que numa das vezes que foi para o trapiche e enxergou o Isidoro que passava rente a outra margem do rio. Pegou uma toalha branca e acenava chamando (talvez a sua última esperança). Evitou que os dois facultativos (o falso e o legítimo) ficassem frente a frente para evitar constrangimento.
Isidoro entrou no quarto, examinou a paciente e a seguir mandou cozinhar um ovo de pata, dando a água para ela beber. Por sorte, acaso, ou proteção de Deus, a criança nasceu. Era um menino. O falso médico, orgulhoso de sua inesperada façanha, ao ser apresentado ao Dr. Lindolfo virou o traseiro e com deboche disse:
O Dr. Lindolfo, educadamente não revidou a afronta, só se limitou a dizer ao Antonico que o discutível sucesso do falso médico deveu-se indiretamente ao efeito retardado dos medicamentos anteriormente ministrados por ele. Mesmo assim, Antonico dominado pelo inusitado acontecimento, intimamente atribuiu o sucesso do parto ao Isidoro de quem se tornou amigo e protetor.
Isidoro era um elemento vaidoso e pávulo3, e por essas suas qualidades jamais dizia desconhecer aquilo que de fato ignorava, tanto que dizia conhecer a capital do Estado, sem ainda ter ido até lá.
Tudo passara e águas plácidas rolaram com a alegria reinante naquele vasto casarão. Antonico em sinal de agradecimento e reconhecimento face ao sucesso do parto convidou o Isidoro para passar uns dias em sua casa de Belém e de lá visitarem os locais pitorescos da cidade, na época em que ainda circulavam nas ruas os bondes elétricos. Essas viaturas rodantes sobre trilhos, quase sempre traziam no frontispício4, como propaganda, reclames de produtos comerciáveis, dentre os quais o Biotônico Fontoura.
Pois bem. No dia marcado, Antonico pegou o navio-gaiola “São Pedro” (que aportara no trapiche Ararinha para abastecer-se de lenha), e com o Isidoro a tiracolo seguiu rumo a Belém. Ao chegarem ao cais do porto, desembarcaram e pegaram um carro de praça na Avenida Castilho França, seguiram pela 16 de Novembro, praça Amazonas, e finalmente Conselheiro Furtado, onde ficava a residência do Antonico, bem em frente a sede dos Caminheiros do Bem. No trajeto, o anfitrião quis testar a veracidade das palavras do Isidoro, que proclamava aos quatro ventos que já conhecia a capital do Estado. Em frente ao mercado de peixe Antonico perguntou:
- Acredito que já conheces este prédio de quatro torres. Pois não?!
- Ora se conheço. É a igreja do Bispo.
E as perguntas foram sendo formuladas durante o trajeto. Ao passarem pela Prefeitura:
- Conheces este palácio azul?
- Conheço sim. É o Palácio onde morou o Rei.
A seguir passaram pela Companhia Inglesa de Gás, com aqueles enormes depósitos circulares acondicionadores de gás (indústria essa desativada e desmontada há anos, cujo patrimônio restante referente à área e galpões foram, posteriormente, adquiridos pela Importadora de Ferragens S/A). Antonico mais uma vez perguntou:
- Conheces esta fábrica?
- Não só conheço como já visitei uma vez. É a fábrica de Cerveja.
No dia seguinte, ambos apanharam o bonde “Circular”, e saltaram no Ver-o-Peso, no que Antonico lhe disse:
- Aqui nos separamos. Eu vou tratar dos meus negócios enquanto tu vais fazer as tuas compras. Aqui mesmo neste ponto, ao regressares pegarás o bonde Circular e saltarás naquela parada de onde viemos. Vou esperar-te para o almoço ás 11h30min. Guia-te pelo relógio da praça.
Ora, ele só conhecia as horas pelo sol quando não chovia. Antonico chegou em casa para o almoço, o relógio badalou onze e meia, doze, treze horas e o Isidoro nada! Que diabo esse homem está fazendo (pensou o Antonico).
Preocupado, pegou um carro de praça e foi até o Ver-o-Peso. Lá estava o Izidoro com um embrulho debaixo do braço encostado no poste da parada.
- O que foi que houve. Eu não disse para apanhares o bonde Circular?
- É. Acontece que por aqui só passa o bonde Biotônico Fontoura.
- Já sei... Já sei... Vamos para casa.
Mais uma semana se passou para que Antonico mostrasse ao Isidoro todos os logradouros que o “turista” tupiniquim dizia conhecer e, finalmente regressaram a Igarapé-Mirí no navio da linha.
Depois desse interregno, Isidoro voltou a sua vida esculapiana5 itinerante, atendendo chamados lá e acolá montado no seu reboquinho vermelho.
Nem bem chegou e uma lancha encosta no seu porto requisitado-no para atender um acidentado cujo antebraço e mão foram esmagados pelas moendas de um Engenho do Rio Panacuera. Isidoro pegou a sua maleta de ferramentas onde continha: serrote, martelo, talhadeira, formão, enxó, pua6, terçado, peixeira, etc. e seguiu para socorrer o acidentado. Chegando lá, não conversou, pegou o rapaz e o fez deitar sobre o picadeiro. Circundou o músculo com a peixeira, pisou com os dois pés de um lado e de outro e pelo golpe meteu o serrote, que indo e vindo entre a fresta das duas tábuas do picadeiro seccionou o osso. Desinfetar as ferramentas, nem pensar. Anestesia não havia e nem precisou: o acidentado desmaiou. Sutura: linha fina de pesca com agulha grossa. Curativo: balsamo Mundial. Nem o tétano, nem a esposa gangrena compareceram no ato da operação. Quem compareceu então? Foi Deus e a divina providência. Até que o Isidoro tinha sorte.
De outra feita, o Isidoro foi chamado para atender um doente de nome Solano, em estado terminal entregue às garras de um paludismo pernicioso. Ao chegar, tirou de sua maleta um alcoômetro G.L. de medir grau alcoólico de cachaça e meteu na boca do doente por alguns minutos e ao retirar, disse:
- Noventa graus de doença.
Examinou o doente e proferiu o diagnóstico:
- Pipocas no fígado. Vou operá-lo.
Puxou de sua maleta uma “quicé” nº1 e enterrou na barriga do doente, que morreu na hora!
- Ora bolas! Ele foi muito mole, não aguentou a operação. Disse o Isidoro.
Por essa “operação” ele andou perto de ver o sol nascer quadrado, não fosse a interferência do Antonico, que era influente e gozava de grande prestígio no município. Depois desse fato, nunca mais tive conhecimento de outras façanhas do Isidoro. O que ficou foi a lembrança deixada pela sua folclórica medicina atípica, que na falta de verdadeiros médicos no interior do Estado naquela época, lhe dava um relativo direito de tentar salvar vidas ou mandar alguém para a cidade dos “pés juntos”, por lhe faltar um cabedal de maior competência.
O pequerrucho que tanto trabalho deu para nascer era filho único do Antonico, e infelizmente por ser fraco e doentio veio a falecer ainda menino. Anos depois, o Antonico morreu e a viúva sem a experiência comercial do marido, viu aquele patrimônio desaparecer. Como isso ocorreu? A viúva fez do caixeiro o seu sócio, para gerir os negócios por se tratar de uma atividade da qual ela sozinha não podia levar a frente, e mesmo não tinha experiência gerencial. Menescal, entretanto como um felizardo bafejado pela sorte grande, diante de tanta fartura, não soube aproveitar com parcimônia a dádiva caída do céu e veio a transformar-se num boêmio inveterado, e dest’arte, não segurou com firmeza o timão do “barco” Ararinha, que ele mesmo arremessou contra o abrolho da insensatez.
Glossário
1. Quartilho: A quarta parte da canada* (*Antiga medida portuguesa, igual a 4 quartilhos.
2. Delivrance: Parto, Resolução do parto. Clinicamente, o estudo do parto analisa três fases ou períodos principais(dilatação do colo do útero, expulsão do feto,e secundamento, dequitação, ou saída da placenta).
3. Pávulo: Deriva de “Pavulagem”, expressão paraense que significa pessoa orgulhosa, metida à besta.
4. Frontispício: Frontaria principal.
5. Esculapiana: De ESCULÁPIO, que significa médico ou indivíduo que conhecimentos médicos.
6. Pua: Nome de um instrumento que serve para furar.
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