sexta-feira, 3 de setembro de 2010

No Caminho da Escola

      Eu devia ter na época uns doze anos, morava com a minha irmã mais velha Alice e, seu esposo Antonio Pinheiro Lopes, os quais foram para mim verdadeiros pais. A casa onde morávamos era um barracão de madeira (bem construído) coberto com palha de ubuçu, ás margens do Rio Maiauatá. A referida residência ficava a uns cem metros da casa e engenho Sempre Viva, pertencentes ao outro cunhado Manduca Lopes, casado com minha irmã Antonia. Uma passarela de tábuas ligava as duas residências.
         Eu, naquela cidade vivia as delícias da imaturidade, própria da adolescência que logicamente ainda ignorava a existência do labirinto que teria de percorrer no futuro, por enquantotudo era luz, alegria, brincadeira. Mas não era só isso. Algo faltava para formação do conhecimento intelectivo; a instrução. Como meu cunhado viajava, minha irmã se encarregou de mandar-me à escola.
         Todas as manhãs, após o café com bolachas eu e alguns outros menino filhos de operários, seguíamos em canoas jacumã na direção da escola, que ficava a meio estirão de distância. Dependendo da maré, alguns dias remávamos a favor e outro contra. Eram belas as manhãs quando cedo nos dirigíamos à escola. Uma névoa translúcida envolvia o ambiente bafejado pela brisa aromatizada vinda das flores silvestres que caiam das árvores ribeirinhas e flutuavam na torrente. Facãozeiros, Bracatingas, Pracaxis, Mamoranas, Mangues, Aturiais e Siriúbas contribuíam, despejando na maré estamens de pétalas. Outros perfumes aromatizavam o rio, vinham do Cipó baunilha, Bromélias, Cataleas e Açunenas. O ar era livre de poluição, leve e respirável a encher nossos pulmões.
         Ao chegarmos “Trapiche Hipólito”, amarrávamos as canoas à escada e nos dirigíamos à sala de aula, onde nos esperava a professora Sofia (misto de bondade e inteligência). A escolinha (como mãe coruja) agasalhava sob suas asas os filhos de operários e quem mais quisesse se alfabetizar, sem ônus para os pais. Mesa comprida com bancos laterais, quadro negro e a mesa da professora. Da minha maletinha tirava o livro, caderno, lápis, borracha, sem esquecer a célere tabuada, caneta e tinteiro. Para os mais atrasados, cartilha do A B C, caligrafia e numeração. Para os mais adiantados, ditado, tabuada, as quatro operações e traslado.
         As minhas cópias sempre as mesmas, eram tiradas de dois excelentes livros; Coração de Criança e Contos Pátrios, este último de Olavo Bilac e Coelho Neto. Do Coração de Criança ainda lembro-me de fragmentos que ainda restam na memória:
“Como te comportaste mal ontem à mesa meu filho! Encheste demais o teu prato, acotovelaste o Sr. Carvalho e repetiste a sobremesa. Nunca mais procedas assim, quando te servires faze-o com sobriedade...”
De Contos Pátrios copiava Navio Negreiro:
“Sereno é o mar, o vento sopra de feição e o brigue veleja garbosamente sob um céu azul onde não passa a mais ligeira nuvem. Quem geme? De onde vem tão sentido lamento? É a carga do brigue, que veio dos mares da África cheio de gente negra...”
         Já adulto, quando fui estudar em Belém, procurei esses livros em todas as livrarias e sebos, mas não tive a sorte de encontrá-los inclusive uma cartilha de Felisberto de Carvalho, muito usada à época por alunos primários cujas letras graúdas separavam as sílabas nas cores preta e vermelha. Lembro-me ainda da gramática de Paulino de Brito, aritmética e geometria de Tito Cardoso Oliveira. Sem pensar no futuro, não tive o cuidado de guardar essas preciosidades.
         Infelizmente a minha querida mestra Sofia já descansa em paz no reino de Deus. Eram doze irmãos de uma grande família, cujo chefe Manoel Lopes Sampaio e esposa Maria Lapa Sampaio deram ao mundo: João, Sofia, Ademar, Altino, Dulcídia, Dulcimar, Aladim, Bilú, Zuila, Diquinho e Vivi.
         Trapiche Hipólito era um estabelecimento constituído de um casarão, anexo ao engenho de fabricação de aguardente, pertencente ao casal. O trapiche armazenava lenha para abastecer os navios-gaiola que demandavam ao Baixo Amazonas.
         Passaram-se alguns meses, minha mãe mandou buscar-me para logo em seguidaseguir para a cidade de Abaeté, onde deveria concluir os estudos primários no grupo escolar, com vistas ao diploma que me levaria a ingressar no ginásio, onde deveria cursar os estudos secundários.

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