Maximiano Cardoso. Este é o nome do cidadão igarapemiriense, alto, gordo, tez avermelhada (parecendo mais um alemão), expansivo, alegre, cujo bigode ao longe dava a impressão de ser espuma de cerveja. Possuía uma família numerosa, fazendo parte dela seis filhos: Maxiquinho, Manduquinha, Eládio, Elesbão, Cecílio e Jovita.Um dos maiores capitalistas de Igarapé-Miri, e como muitos outros de seus colegas industriais, explorava a fabricação de aguardente de cana.
Orgulhava-se de ter o melhor de todas as coisas que possuía: A maior fábrica, a melhor e mais veloz lancha a vapor e os maiores terrenos com as maiores lavouras de cana. O seu engenho intitulado Juarimbú, ficava às margens do rio do mesmo nome era um ponto de convergência de inúmeros fregueses, cujo trapiche ficava circundado de embarcações de todos os tamanhos, principalmente aos domingos. Além da lavoura de cana, abundavam em seus terrenos: cacaueiros e seringueiras. A sua lancha a vapor, importada da Europa, era a única existente no município com casco de ferro galvanizado (enquanto as outras eram de ferro comum) ostentava na proa o nome: TUCUMANDUBA. Além do timão e campa de manobra que as demais lanchas possuíam, tinha a mais um tubo acústico do comando à sala de máquina, pelo qual ele se comunicava com o maquinista para exigir mais pressão na caldeira e mais velocidade na máquina em caso de porfia.
Em termos de elegância ele não descuidava. Lembro-me que quando ainda era moleque o via vestido a caráter, dirigindo a sua lancha em viagens especiais de festas ou quando ia a alguma cidade como: Igarapé-Miri, Abaeté ou Belém, exibindo nessas ocasiões um sapato preto em couro de bezerro, terno branco (completo), inclusive gravata borboleta branca. Do colete pendia uma passadeira em ouro tendo na extremidade, um relógio algibeira no mesmo metal (possivelmente um Patek-Filipe). Para completar a elegante indumentária, ao topo da cabeça um chapéu Brunetto de palhinha fina. Lembro-me ainda do casamento de sua filha Jovita, que ao atravessarmos a baía na lancha Tucumanduba para irmos ao casório, enfrentamos tanto na ida como na volta, o rigor das ondas que se encresparam com o soprar da ventania. Mas valeu a pena, muitas iguarias comestíveis ao som de um conjunto musical abaeteense, o qual de noite dominou o balancê dos casais rodopiantes, em meio a um grande salão ornamentado.
Maximiano era muito conversador, loquaz e contador de causos e vantagens, levava a conversa a descambar para as inocentes e inofensivas mentirinhas, ao calor vindo do entusiasmo, talvez para testar o grau de absorção por parte de seus ouvintes ingênuos ou não, tornando-se desse modo um predecessor do nosso conhecido Coronel Pantaleão, só que ao invés de Terta, Maximiano nomeou o seu filho Manduquinha.
Uma vez, o meu cunhado Antônio, foi ao engenho Juarimbú para comprar umas frasqueiras de cachaça para revendê-las engarrafadas no seu comércio. Ao chegar, foi euforicamente recebido pelo Maximiano. Enquanto eram providenciados o enchimento dos garrafões e a papelada fiscal da transação, o comerciante entabulou1 com o meu cunhado uma animada conversação:
- Com a idade que tenho hoje, já me considero alquebrado2, com o tanto que fazia anteriormente. (disse Maximiano).
- Qual nada. Você continua a ser um homem forte. (retrucou Antonio)
- Estas vendo aquela talha patente? Pois bem eu colocava a mesma nos meus ombros, subindo aquela escada ali encostada, e engatava o gancho naquela viga. Não é Manduquinha?
- É sim senhor.
- De fato você tinha mesmo muita força.
- É Antonio. Não ficava só nisso. Quando eu era mais novo, eu carregava garrafão de frasqueira e meia com a maior facilidade. Lembro-me que um dia, ao jogar o garrafão no ombro, ele escapuliu para trás, eu me virei rapidamente e consegui apará-lo antes que chegasse ao chão. Não foi Manduquinha?
- Foi papai.
Com mais esta o meu cunhado despediu-se, mas não engoliu a história daquela frágil escadinha a suportar os 90 quilos do corpo e mais 50 quilos da talha (de ferro e mais correntes) difícil de ser carregada por um só homem, e nem naquela mágica de aparar um garrafão cheio escorregado para trás com uns 40 quilos.
Maximiano se dizia orgulhoso de sua lancha, que era a menina dos seus olhos em razão dos reais predicados, inclusive a de ser a mais veloz dentre as demais. Quando ele ia á cidade de Abaeté, desafiava os proprietários das outras lanchas ancoradas no porto, esperando a enchente para zarpar. Sempre trazia no porão de proa, achas de lenha de alto poder calórico na combustão, como por exemplo: Mariximbé e Pacapeuá, para enfrentar competidores na hipótese de uma porfia.
- Colega, você vai largar os cabos agora? Dizia Maximiano.
- Não, só mais tarde!
- Vamos porfiar?
- Quem sou eu em querer que a minha lancha porfie com a sua.
A Tucumanduba saía em cima da enchente e, obedecendo a vontade do seu dono, ficava por trás da “ilha da Pacoca” escondida como uma serpente pronta para dar o bote. Quando uma das lanchas passava pela ilha, a Tucumanduba aparecia jogando sobra de vapor pela descarga, apitando em sinal de desafio e picardia, a fazer evoluções na frente do oponente. Quando o colega aceitava a disputa, fatalmente como sempre acontecia, Maximiano ganhava, e a vitória constituía para ele uma glória.
O seu entusiasmo ao referir-se á sua lancha Tucumanduba era tão grande que atingia as raias de incontrolável exagero, tanto que em certa ocasião, conversando com um seu colega engenista, que também possuía uma modesta lancha, orgulhosamente disse:
- Pois é meu amigo. A Tucumanduba, não teme concorrência face a sua potencialidade.
- É, de fato com aquela sua máquina potente de tripla expansão, não tem adversário a sua altura.
Com esse elogio, Maximiano estufou o peito como um peru bronzeado e mandou essa:
- Numa das viagens que eu fiz na Tucumanduba, regressando de Belém, a maré já vazava uns 15 centímetros abaixo da preamar e eu precisava passar com folga o canal de Igarapé-Miri.
Apanhei 200 achas de “magonçalo” num porto próximo a capital e larguei os cabos.
- E conseguiste?
- Escuta ai. Mandei o maquinista puxar o máximo que a máquina pudesse dar, e quando passei na cidade do Moju, permaneciam 15 centímetros de vazante.
- Uma vantagem rara. Não é?
- Exatamente. Passei o canal, e quando passei pela cidade de Igarapé-Miri, permaneciam os 15 centimetros de vazante.
- Puxa! Uma façanha inédita.
- E segui em frente. Mandei puxar o máximo de força. O certo é que, quando cheguei a foz o Juarimbu, teria que contornar o baixão de areia, gastando mais tempo. Então, aproveitando o volume d'água que a lancha deslocava fiz com que ela passasse por cima do baixão. entrando definitivamente no rio acima até o porto do engenho.
- Posso dizer que essa vantagem foi uma façanha heróica.
- Exatamente. E olhe lá: ao desembarcar, olhando lá de cima do trapiche, notei que a lancha resfolegava ofegante expelindo fumaça pelas “narinas” Não foi Manduquinha?
- Foi meu pai.
- Posso te dizer que foste mais herói que a própria lancha. Tu mereces uma medalha de ouro.
Despediram-se e separaram-se.
Por muitos anos ainda viveu aquele homem bondoso. Por muitos anos aquela lancha como branco cisne, arrostava com o seu “bico” aquele bigodão de água, rebentando branca-espuma. Quando o nosso Maximiano morreu, foi como se uma grande árvore frondosa fosse derrubada. Abriu-se uma imensa lacuna, e um grande império foi pulverizado pelos filhos (como sempre acontece), que não se uniram numa sociedade solidária, para preservar o nome do pai e um patrimônio que despencou a ladeira e água abaixo, e hoje deve existir no local apenas uma tapera.
Glossário:
1. Entabulou – travar (conversa).
Alquebrar – debilitar, enfraquecer
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