quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Uma briga musical

Aproximava-se o esperado dia que marcava o inicio da festa do padroeiro da localidade (sítio) onde morava o Anacleto, instalado com a sua companheira Marieta, filhos e alguns netos no grande chalé de madeira de lei coberto com telhas de barro, às margens do Igarapé Grande. A casa se elevava do chão, uns três metros de altura, onde debaixo do assoalho se abrigavam em comunhão pacífica, galinhas, patos, perus, marrecos e paturis, dividindo espaço com os “aculturados”: mutum, jacamim e o pavãozinho. Dentro de casa os bicharocos de estimação: um casal de cachorros, um casal de gatos e mais dois personagens que não devem faltar em qualquer casa do interior que se preze: o papagaio Zecão e o macaco Pipoca. Completando a população xerimbabesca1, viviam também ali em completa harmonia, algumas cabras leiteiras, junto as quais não podia faltar o malcheiroso bode Alecrim. Mais distante o chiqueiro dos porcos.
Da porta de entrada da casa, uma oscilante prancha se estendia e topava a extremidade, no tronco de uma viçosa laranjeira de aguçados espinhos. Por aquela prancha, as pessoas entravam e saiam.
A data da festança se aproximava. Honorato vociferava nervosamente em tom de comando pró-ornamentação:
- José! Finca ali mais quatro varas... Duas de cada lado.
- Sim “sinhu”... Eu “vu” buscá o ferro de cova.
- Fernando! Pega aquelas bandeirolas. Trepa naquela escada e amarra a ponta do cordel na primeira vara.
- Aqui?
- Não. Mais em baixo.
- Tá bão?
- Estica mais.
Outra turma andava de pintar com cal as paredes, retocando a pintura do ano anterior, não esquecendo de lambuzar o tronco das frondosas mangueiras e altaneiros açaizeiros que circundavam o barracão. A alegria contagiava até os xerimbabos da casa, os quais executavam um coral de várias vozes, regido pelo galo e demais figurantes, dentre os quais os cachorros, o papagaio, a picota, e como não podia deixar de ser, o macaco Pipoca.
         Ao iniciar-se o período festivo, a perspectiva era de que tudo deveria correr dentro da normalidade dos anos anteriores. Todas as noites, ladainhas laudatórias, se faziam ouvir no reboar das cantorias. No porto, encabrestadas, várias canoas flutuavam aguardando os donos, para o regresso de todos os dias no final da quadra festiva. Após a reza os romeiros degustavam chocolate com beiju-xica e broas de tapioca. No ar o cheiro de pólvora queimada dos foguetes que explodiam a cada instante alimentando o clima de festa. O Anacleto e consorte, extravasavam a alegria e o contentamento face a realização de mais um ano de congraçamento caboclo em homenagem ao santo, cujos gastos lhe custaram a economia amealhada2 -sem sacrifício- todo o ano exclusivamente para aquele fim.
Na antevéspera do dia da festa chegavam as três personalidades importantes e indispensáveis: Guita, Esperança e Anastácia, esbeltas e rechonchudas mulatas cheirando a priprioca e patichuli, as quais na retaguarda do casarão iriam pilotar o vasto fogão a lenha, repleto de panelões, frigideiras, alguidares, cupuru e demais artefatos culinários. Nesse exato momento estavam condenados à morte: patos, galinhas, perus e os capados.
Esses três dias finais de festa representavam o clímax da temporada, na qual homenageavam pirotecnicamente o santo desde o amanhecer. Às sete horas do último dia, atracou no beiradão uma canoa movida a jacumã, trazendo um grupo de pessoas mais importantes e desejadas no contexto da festança: os músicos. Esse afamado conjunto os “Bacuraus”, vieram como nos outros anos, contratados para acompanharem a procissão, e, durante a noite, poriam a funcionar um repertório variado, na promoção do forró até o sol raiar, mas o inusitado viria acontecer o que não ocorrera nos anos anteriores.
É chegada a hora da procissão. Com todo cuidado, Anacleto, pegou o santo e desceu pela prancha, colocando-o no andor3. Em seguida, o conjunto musical (em fila indiana) começou a descer pela prancha conduzindo os seus instrumentos musicais, e tocando o hino sacro “Queremos Deus”, tendo á frente o maestro mestre André, fazendo vibrar as cordas da sua rabeca. Devido a flexibilidade da prancha, esta adquiriu um movimento para cima e para baixo, tornando cada vez mais largos os passos das pessoas que caminhavam sobre ela. O que ocorreu teve certa similitude a várias batidas de carro numa estrada envolta por forte neblina.
O mestre André, não podendo controlar as suas passadas, e para não dar com a cara nos espinhos da laranjeira, aguentou o tranco com a sua rabeca, transformando-a numa autêntica sucata. O músico Jorge que vinha logo atrás sofrendo o mesmo efeito incontrolável do seu deslocamento para frente foi de encontro ao próximo, batendo a vara do seu trombone de Vara, na Cabeça do maestro. Dai por diante a orquestra entrou em ritmo de colisão, produzindo confusão entre os músicos, com desafinado solfejo4, numa briga lírica. O Jagunço deu sem música, uma clarinetada na cabeça do Jacaré porque lhe havia pisado no calo de estimação, o qual revidou com uma pistonada, que resvalou pegando na orelha do Zecão, que estava com o seu cavaquinho para dar uma cavaquinhada no seu antagonista. O Geraldo baterista, ao receber uma saxofonada nas costas desferida por Timóteo, se vingou enfiando o bombo na cabeça deste. O certo é que terminada a briga com as armas orquestrais os músicos brigantes passaram para o corpo a corpo na base do bofete, pescoção, rasteiras e bofetadas até que a turma do “deixa disso”, encabeçada pelo Anacleto, conseguiu apaziguar os ânimos.
Com a interferência do Anacleto, tudo serenou sem perda de sangue, graças a Deus. Enquanto isso, todos os romeiros por “si” “sol” já “fá”ziam “dó” ver “lá” no terreiro, todos esperando o “mi”lagre de ser “ré” iniciada a procissão apenas na cantarola, sem as notas musicais, as quais ficaram congeladas nos instrumentos quebrados sob o impacto da Cavalleria rusticana. Por ocasião da briga orquestral, as cozinheiras, foram promovidas a espectadoras da briga lá de fora, abandonando o lume do fogão lá de dentro, situação essa,propícia para que os bichanos e caninos avançassem além da fronteira da cozinha, contrabandeando para dentro dos seus buchos uma boa parte do rango, embora que com as barrigas cheias recebessem em troca uma dose de surra, instrumentada com colher de pau e cabo de vassoura.
Os músicos titulares meteram o que restou da viola no saco e se largaram rio abaixo. E agora? E o arrasta pé? Como vai ser? O Anacleto saiu à frente e determinou:
- Honorato! Convida ai uns quatro caboclos, vai ali na boca do igarapé Pacu e contrata o Mané Gato e o seu pau e corda para de noite levar a festança adiante.
Até após a ladainha e a seguir os comes e bebes, o forró varou a noite até o sol raiar. Para evitar futuros acidentes de prancha, Anacleto mandou construir uma escada larga, em madeira de lei. Com esse evento inusitado, ao que parece, -até aquela data-, em forró foi a primeira vez que uma briga ao invés de estourar entre os dançantes, explodiu entre os músicos, o que de fato é um espanto.

Glossário:
1.        XerimbabosBras. Norte Designação genérica de animal de criação. (No Paraná dizem mumbavo.)
2.        Amealhar – Economizar.
3.        Andor - Padiola ornamentada para levar santos em procissão.
4.        Solfejar - Ler ou entoar música pronunciando somente o nome das notas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário