terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dois Irmãos




Eram dois Irmãos inseparáveis: Osório e Manoel. Ambos trabalhavam em canaviais no município de Igarapé-Miri, onde moravam. Tanto Osório como Manoel pertenciam a uma “seita” que professavam com devoção e submissão, nela adoravam três “divindades”: Festa, Cachaça e Baralho. De madrugada, antes de irem para o canavial jogavam goela abaixo um avantajado “mata bicho” calibrado na pureza alcoólica de 21 gra­us G L.
Osório, baseado no físico avantajado de seus bíceps e demais condições musculares de seu esqueleto, promovia arruaças nas festas após a ingestão etílica de vários goles de pinga. Era o mais prosaico dos dois, gesticulava, papeava a contar lorotas, principalmente quando em sua cachola fervilhava o efeito da “mutamba”.
Lembro-me de uma ocasião na qual minha irmã Alice que criava muitas galinhas caipiras no sítio chamado Atividade, onde o casal residia, meu cunhado tinha como ganha-pão uma loja de secos e molhados. Além de outros afazeres domésticos, Alice tinha o seu plantel de galinhas, patos e perus, que para ela era autêntico lazer. Acontece, entretanto que os gaviões rondavam o terreiro onde as penosas ciscavam o chão o dia todo após a ração de milho. Eram esquadrilhas de gaviões, rasgando os céus daquele beiradão do Rio Maiauatá em missão suicida fazendo acrobacias, e por vezes um deles flechava em parafuso, capturando alguma franga para saboreá-la num saboroso repasto.
Como a melhor defesa é o ataque, o meu cunhado usando uma estratégia cabocla, resolveu pregar uma peça num astuto gavião, grande conhecedor da localização do galinheiro que era o Q.G. do general galo. O rapino, vez por outra capturava uma galinha. Para conseguir aprisionar aquele audacioso “falconídeo japacanim” inimigo sem gastar bala, armou uma arapuca no terreiro em frente ao comércio, usando um paneiro desses que são usados para prender patos. Sob o paneiro foi colocado um apetitoso frango como isca.
Não deu outra, o gavião era um cara de pau que desta vez ao invés de vir pelo ar em vôo rasante, ele aterrissou longe do pasto e veio de mansinho em marcha cadenciada até a “casamata1” traiçoeira, onde por força do destino ficou aprisionado.
O meu cunhado para se vingar do rapino, que lhe havia afanado várias galinhas, ao invés de matá-lo resolveu submetê-lo a tortura psicológica: amarrou um cordel numa das pernas do malandro, espalhou milho sobre ele e soltou todas as galinhas. Envergonhado e impotente, se estampou na cara do gavião um semblante de frustração e tristeza. A intenção do meu cunhado era soltá-lo, para com a lição que recebeu aprendesse a respeitar as galinhas alheias. Acontece, entretanto que inesperadamente chegou o Osório, cheio da “mutamba”, no justo mo­mento do espetáculo gavionístico e cambaleante. Disse categoricamente:
- Gavião comendo as galinhas do meu patrão? Isso nunca!
Pulou da ponte para o terreiro, e com uma só dentada decepou a cabeça do prisioneiro alado e começou a comê-lo ainda vivo, com o sangue do animal a escorrer-lhe pelos cantos da boca. O meu cunhado não gostando daquela cena repugnante, tirou o gavião das mãos do Osório jogando para bem longe, terminando assim o “gavianocídio”.
Reportando-me agora a um período de idos tempos, ha­via a proibição do jogo de azar, estabelecida por dispositivo de uma Lei federal, e levada muito a sério pelas autoridades constituídas. Osório e Manoel, que eram vidrados em carteado, estavam jogando baralho à sombra de um cacaueiro existente na época aos fundos do engenho do meu pai. Bem escondidos de elementos perturbadores. Quando um agente de polícia desses competentes farejadores de transgressores da Lei pin­tou no esconderijo, flagrando-os arriscando no baralho míseros “pacurus”. Inútil foi querer convencer o agente de que a aparente jogatina não passava de jogo de paciência, cujo papo não convenceu o policial. Lá se foram os dois presos com passaporte e destino ao xilindró da cidade.
Lá chegando, na presença do delegado que era um tenente reformado da Polícia Militar. Osório tomou logo a dianteira e disse:
- Seu capitão Delegado, não prenda nós. Nunca “fumo” preso.
- Eu cumpro a Lei. Vocês sabem que o jogo de azar está proi­bido.
- Seu delegado (disse Osório). Eu tenho aqui no “burço” cinquenta mil reis, pra vossa “insolência” nos “sortá”.
- Eu não aceito propina. Guarda, recolhe os dois!
Sem outro jeito a dar, os dois sentaram-se no centro do quadrilátero do xadrez, Osório puxa do bolso o velho baralho amigo e trançam um animado pacau.
O carcereiro correu à sala do delegado e disse:
- Os “homi” estão jogando baralho lá no xadrez.
- A Lei manda prender. Uma vez presos, daí para frente nada mais posso fazer.
Durante toda noite, de propósito, não deixaram o carcereiro dormir.
- Ei carcereiro, já que não tem cachaça me traz uma cuia com água.
- Carcereiro, deixa eu sair pra “uriná”.
- Carcereiro, eu estou com dor de barriga. Eu quero ir à pri­vada, disse o Manoel.
- Carcereiro, eu quero ir à privada, disse o Osório.
O carcereiro, já sonolento, disse:
- Eu não abro mais o xadrez.
- Se não abrir eu faço aqui mesmo.
- Não, não! Eu já vou abrir.
Quando amanheceu o dia, o carcereiro foi ao delegado e implo­rou que mandasse os prisioneiros embora. Terminado o período, segundo o qual os dois deveriam ser libertados, o delegado foi até ao xadrez e determinou ao carcereiro:
- Abra o xadrez!
- Pra quê? Perguntou o Osório.
- Vocês estão livres.
- Seu delegado. Eu fiz tudo pra não ser preso e o “sinhú” não “iscutú” agora nós não “queremu” sair daqui.
- Por quê?
- “Pruquê” aqui não “trabalhemo”, nós “cumemo” de graça, nós “juguemo” o nosso baralhinho e de sobra ainda “inchemu” o saco do carcereiro.
Para que os dois abandonassem o xadrez, tiveram de ser carre­gados e despejados no meio da rua, terminando assim a mordomia prisio­nal dos dois.
Depois dessa lição, os irmãos voltaram para suas casas e continuaram como sempre a beber, jogar, dançar e brigar nos forrós.
Passaram-se alguns anos, e um dia apareceu o Osório, já comba­lido pelo efeito deletério do álcool:
- Patrão, a minha “canua” é “gita” e eu quero que “vucê” me empreste uma maior para eu ir à Abaeté, arrancar este meu dente “pudre”.
- Tudo bem. Leva aquela ali que está amarrada naquele moirão.
Lá se foi o Osório. Não passou duas horas ele já vem voltando. O meu cunhado lá com os seus botões se pergunta: Ué! Uma viajem a Abaeté (ida e volta) em canoa a remo leva um dia inteiro, depen­dendo da maré.
- Osório. O que foi que houve? Não fostes mais?
- É que eu “sartei” na vila Concórdia para beber um gole e trancei um jogo de baralho com o “Polvarinho” e de gole em gole, acabamos brigando. Ele me deu um murro na cara arrancando o meu dente. “Fui” até “bão” porque economizei o dinheiro do dentista.


Glossário

1.        Casamata: Bateria abobadada.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

“Doutor” Isidoro

Negro, de mediana estatura, barrigudo, pernas arqueadas, usava chapéu preto de feltro surrado e nos pés um chinelo de couro. Registrava no seu currículo profissional o diploma de analfabetismo da “Universidade do rio Anapu”, município de Igarapé-Mirí. No contato que mantinha com qualquer pessoa, exigia dela que lhe chamasse de doutor, chegando mesmo a não atender se o paciente não antepusesse ao seu nome a titulagem de doutor. Quando chamado, viajava rio abaixo ou acima numa canoa com tolda, que era impulsionada a remo de faia por intermédio de um remeiro seu empregado. Se no trajeto alguém da margem do rio o chamasse:
- Isidoro... Ei, Isidoro!
Ele dizia ao remeiro:
- Rema, rema. Não para de remar!
- Ei, Dr. Isidoro, Dr. Isidoro!
- Volta, volta! Vamos atender a pessoa que me chamou.
Todos os moradores daquela região conheciam o seu reboquinho vermelho de tolda amarela, e se alguém estivesse doente o chamavam aos gritos. Se ele passava do outro lado do rio acenavam com uma toalha até ele atender.
Quando viajava, sempre levava um caixote de medicamentos do seu laboratório de fundo de quintal a base de ervas cozidas (ditas medicinais), acondicionadas em garrafas de quartilho1 e meio, fechadas com rolha de buruti. O “doutor” também receitava remédios alopáticos sem, entretanto conhecer a bula, pois não sa­bia ler, os conhecia apenas pelo rótulo ou formato do recipiente, tanto que um rótulo retratando um homem com um bacalhau às costas, já sabia que era Emulsão de Scott, o mesmo acontecendo ao ver o rótulo apresentando um homem de paletó coçando as costas com o guarda-chuva, logicamente só poderia ser o Mitigal, o Biotônico Fontoura era nacionalmente conhecido pelo rótulo, até hoje quando retornou ao mercado farmacêutico após muitos anos de ausência.
Um dia, a minha mãe adoeceu e contra a sua vontade o meu pai mandou buscar o Isidoro, que passou a noite em casa. Ao chegar colocou o seu caixote de remédios dentro do quarto da doente. De madrugada as rolhas dos recipientes começaram a ser expulsas explosivamente, pressionadas pela fermentação. Como não se tratava de champagne, pela manhã a minha mãe obrigou o meu pai a despachar o Isidoro para bem longe.
Uma das insipientes cartadas que lhe deu certa notoriedade foi quando o Antonio Lopes da Costa o chamou para atender a esposa. Antonio Lopes da Costa, conhecido também como Antonico Arara, mantinha uma casa comerci­al muito bem sortida e um grande trapiche onde armazenava a céu aberto, uma montanha de lenha para abastecer os navios-gaiola que singravam a Amazônia, transportando gente e explorando o comércio fluvial. Esse importante porto chamava-se “Ararinha” ou “Casa Ararinha”.
Num dia não muito feliz, estando a esposa do Antonico grávida, cuja delivrance2 se complicou a ponto da criança ficar ameaçada a não nascer no tempo de um parto normal. Antonico mandou buscar em Abaeté o médico Dr. Lindolfo, que logo de início aplicou todos os medicamentos apropriados e a criança nada de nascer, pondo a casa em polvorosa. Antonio já desesperado, andando da casa para o trapiche e vice versa, até que numa das vezes que foi para o trapiche e enxergou o Isidoro que passava rente a outra margem do rio. Pegou uma toalha branca e acenava chamando (talvez a sua última esperança). Evitou que os dois facultativos (o falso e o legítimo) ficassem frente a frente para evitar constrangi­mento.
Isidoro entrou no quarto, examinou a paciente e a se­guir mandou cozinhar um ovo de pata, dando a água para ela beber. Por sorte, acaso, ou proteção de Deus, a criança nas­ceu. Era um menino. O falso médico, orgulhoso de sua inesperada façanha, ao ser apresentado ao Dr. Lindolfo virou o traseiro e com deboche disse:
O Dr. Lindolfo, educadamente não revidou a afronta, só se limitou a dizer ao Antonico que o discutível sucesso do falso médico deveu-se indiretamente ao efeito retardado dos medicamentos anteriormente ministrados por ele. Mesmo assim, Antonico dominado pelo inusitado aconte­cimento, intimamente atribuiu o sucesso do parto ao Isidoro de quem se tornou amigo e protetor.
Isidoro era um elemento vaidoso e pávulo3, e por essas suas qualidades jamais dizia desconhecer aquilo que de fato ignorava, tanto que dizia conhecer a capital do Estado, sem ainda ter ido até lá.

Tudo passara e águas plácidas rolaram com a alegria reinante naquele vasto casarão. Antonico em sinal de agradecimento e reconhecimento face ao sucesso do parto convidou o Isidoro para passar uns dias em sua casa de Belém e de lá visitarem os locais pitorescos da cidade, na época em que ainda circulavam nas ruas os bondes elétricos. Essas viaturas rodantes sobre trilhos, quase sempre traziam no frontispício4, como propaganda, reclames de produtos comerciáveis, dentre os quais o Biotônico Fontoura.
Pois bem. No dia marcado, Antonico pegou o navio-gaiola “São Pedro” (que aportara no trapiche Ararinha para abastecer-se de lenha), e com o Isidoro a tiracolo seguiu rumo a Belém. Ao chegarem ao cais do porto, desembarcaram e pegaram um carro de praça na Avenida Castilho França, seguiram pela 16 de Novembro, praça Amazonas, e finalmente Conselheiro Furtado, onde ficava a residência do Antonico, bem em frente a sede dos Caminheiros do Bem. No trajeto, o anfitrião quis testar a veracidade das palavras do Isidoro, que proclamava aos quatro ventos que já conhe­cia a capital do Estado. Em frente ao mercado de peixe Antonico perguntou:
- Acredito que já conheces este prédio de quatro torres. Pois não?!
- Ora se conheço. É a igreja do Bispo.
E as perguntas foram sendo formuladas durante o traje­to. Ao passarem pela Prefeitura:
- Conheces este palácio azul?
- Conheço sim. É o Palácio onde morou o Rei.
A seguir passaram pela Companhia Inglesa de Gás, com aqueles enormes depósitos circulares acondicionadores de gás (indústria essa desativada e desmontada há anos, cujo patrimônio restan­te referente à área e galpões foram, posteriormente, adquiridos pela Importadora de Ferragens S/A). Antonico mais uma vez perguntou:
- Conheces esta fábrica?
- Não só conheço como já visitei uma vez. É a fábrica de Cerveja.
No dia seguinte, ambos apanharam o bonde “Circular”, e saltaram no Ver-o-Peso, no que Antonico lhe disse:
- Aqui nos separamos. Eu vou tratar dos meus negócios enquanto tu vais fazer as tuas compras. Aqui mesmo neste ponto, ao regressares pegarás o bonde Circular e saltarás naquela parada de onde viemos. Vou esperar-te para o almoço ás 11h30min. Guia-te pelo relógio da praça.
Ora, ele só conhecia as horas pelo sol quando não chovia. Antonico chegou em casa para o almoço, o relógio badalou onze e meia, doze, treze horas e o Isidoro nada! Que diabo esse ho­mem está fazendo (pensou o Antonico).
Preocupado, pegou um carro de praça e foi até o Ver-o-Peso. Lá estava o Izidoro com um embrulho debaixo do braço encostado no poste da parada.
- O que foi que houve. Eu não disse para apanhares o bonde Circular?
- É. Acontece que por aqui só passa o bonde Biotônico Fontoura.
- Já sei... Já sei... Vamos para casa.
Mais uma semana se passou para que Antonico mostrasse ao Isidoro todos os logradouros que o “turista” tupiniquim dizia conhecer e, finalmente regressaram a Igarapé-Mirí no navio da linha.
Depois desse interregno, Isidoro voltou a sua vida esculapiana5 itinerante, atendendo chamados lá e acolá montado no seu reboquinho vermelho.
Nem bem chegou e uma lancha encosta no seu porto requisitado-no para atender um acidentado cujo antebraço e mão foram esmagados pelas moendas de um Engenho do Rio Panacuera. Isidoro pegou a sua maleta de ferramentas onde continha: serrote, martelo, talhadeira, formão, enxó, pua6, terçado, peixeira, etc. e seguiu para socorrer o acidentado. Chegando lá, não conversou, pegou o rapaz e o fez deitar sobre o picadeiro. Circundou o músculo com a peixeira, pisou com os dois pés de um lado e de outro e pelo golpe meteu o serro­te, que indo e vindo entre a fresta das duas tábuas do picadeiro seccionou o osso. Desinfetar as ferramentas, nem pensar. Anestesia não havia e nem precisou: o acidentado desmaiou. Sutura: linha fina de pesca com agulha grossa. Curativo: balsamo Mundial. Nem o tétano, nem a esposa gangrena compareceram no ato da operação. Quem compareceu então? Foi Deus e a divina providência. Até que o Isidoro tinha sorte.
De outra feita, o Isidoro foi chamado para atender um doente de nome Solano, em estado terminal entregue às garras de um paludismo pernicioso. Ao chegar, tirou de sua maleta um alcoômetro G.L. de medir grau alcoólico de cachaça e meteu na boca do doente por alguns minutos e ao retirar, disse: 
- Noventa graus de doença.
Examinou o doente e proferiu o diagnóstico:
- Pipocas no fígado. Vou operá-lo.
Puxou de sua maleta uma “quicé” nº1 e enterrou na bar­riga do doente, que morreu na hora!
- Ora bolas! Ele foi muito mole, não aguentou a opera­ção. Disse o Isidoro.
Por essa “operação” ele andou perto de ver o sol nas­cer quadrado, não fosse a interferência do Antonico, que era influente e gozava de grande prestígio no município. Depois desse fato, nunca mais tive conhecimento de ou­tras façanhas do Isidoro. O que ficou foi a lembrança deixada pela sua folclórica medicina atípica, que na falta de verdadeiros médi­cos no interior do Estado naquela época, lhe dava um relativo direito de tentar salvar vidas ou mandar alguém para a cidade dos “pés juntos”, por lhe faltar um cabedal de maior competência.
O pequerrucho que tanto trabalho deu para nascer era filho único do Antonico, e infelizmente por ser fraco e doentio veio a falecer ainda menino. Anos depois, o Antonico morreu e a viúva sem a expe­riência comercial do marido, viu aquele patrimônio desaparecer. Como isso ocorreu? A viúva fez do caixeiro o seu sócio, para gerir os negócios por se tratar de uma atividade da qual ela sozinha não podia levar a frente, e mesmo não tinha experiência gerencial. Menescal, entretanto como um felizardo bafejado pela sorte grande, diante de tanta fartura, não soube aproveitar com parcimônia a dádiva caída do céu e veio a transformar-se num boêmio inveterado, e dest’arte, não segurou com firmeza o timão do “barco” Ararinha, que ele mesmo ar­remessou contra o abrolho da insensatez.

Glossário
1.        Quartilho: A quarta parte da canada* (*Antiga medida portuguesa, igual a 4 quartilhos.
2.        Delivrance: Parto, Resolução do parto. Clinicamente, o estudo do parto analisa três fases ou períodos principais(dilatação do colo do útero, expulsão do feto,e secundamento, dequitação, ou saída da placenta).
3.        Pávulo: Deriva de “Pavulagem”, expressão paraense que significa pessoa orgulhosa, metida à besta.
4.        Frontispício: Frontaria principal.
5.        Esculapiana: De ESCULÁPIO, que significa médico ou indivíduo que conhecimentos médicos.
6.        Pua: Nome de um instrumento que serve para furar.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Padre Ângelo Serri

Sacerdote carismático, merecedor de nosso respeito e saudade. A ele coube a missão de receber um acervo deteriorado deixado pelos irmãos Maristas. Esse acervo era o futuro COLÉGIO SALESIANO NOSSA SENHORA DO CARMO.
Quando pela primeira vez entrei no pátio do Carmo, encontrei um padre, fiquei a duvidar se de fato era sacerdote ou um braçal. A sua batina preta estava avermelhada do pó das pedras que carregava no ombro. As mãos estavam calosas, de carregarem tábuas e caibros de um lado para outro, na faina cotidiana em querer deixar tudo nos devidos lugares.
O que mais causou-me admiração foi ver um rosto vermelho, queimado pelo sol, numa expressão serena, cuja barba deixava escapar gotículas de suor a molhar a sua sotaina.
A sua arte pictórica estava alicerçada na fé inabalável que professava com fervor. Quando outro diretor o substituiu, ele escalou os andaimes para pintar preciosidades religiosas, no frontal do altar e na abóbada da igreja que tanto amava. Após seu memorável trabalho sendo um missionário, cumpriu o seu apostolado junto aos silvícolas em uma das missões da Amazônia.

A Festa do menino deus

A Fábrica Menino Deus ficava localizada à margem do Rio Maiauatá, município de Igarapé-Mirí. A atividade industrial do empreendimento voltava-se para a fabricação de sabão, cuja matéria prima era a semente de Ucuuba detentora de grande teor oleaginoso. Hoje, essa árvore está quase extinta em decorrência da devastação indiscrimi­nada pelos madeireiros que a vendem com o nome “Virola” (Surinamensis ou Sevífera).
Eu nasci e cresci conhecendo as três sagradas árvores da várzea igarapemiriense: Ucuuba, Andiroba e Seringueira. Todos respeitavam essa dádiva da natureza. A seringueira como vaca leiteira a produzir látex, cuja manipulação alimentava o magro orçamento dos caboclos ribeirinhos. As sementes de Ucuuba e Andiroba eram colhidas debaixo das respectivas árvores ou, no rio onde flu­tuavam levadas pela maré lançante que banhava a várzea. Essas sementes flutuantes eram colhidas pelos caboclos usando um paneirinho afunilado amarrado na extremidade de uma taquara¹ fina.
Essas sementes, uma vez colhidas, eram vendidas pelos caboclos no comércio em defesa do baco-baco diário. Posteriormente as casas comerciais vendiam para as fábricas extratoras de óleo vegetal e produtoras de sabão. O excedente, os comerciantes exportavam para Belém.
Uma das fábricas, a Menino Deus, assentava-se debaixo de um vasto galpão de madeira, coberto com telhas de barro, galpão esse que se ligava ao espaço residencial através de ponte de madeira. Da fábrica extendia-se para a margem do rio, o trapiche de embarque e desembarque. A casa residencial era construída de enchimento em barro, toda pintada de azul, tendo dentre os demais compartimentos, um oitão que se projetava do principal formando um grande salão em cuja extremidade ficava a capela onde ficava entronizada a imagem do Menino Deus. Fechada a capela, o salão se transformava em pista de baile.
Quem era o proprietário desse empreendimento? José Lopes Sampaio, cidadão respeitável pertencente à tradicional família igarapemiriense. No meio de seus amigos mais íntimos era conhecido como Cazuza Sampaio. Estatura mediana, gor­do, dinâmico, timbre de voz em alta tonalidade e ostentava um grosso bigode negro. Exemplar chefe de família junto a esposa Do­na Sinhara (irmã do meu cunhado Antonio), mulher que agasalhava no coração o mais alto sentimento de bondade que distribuía com os filhos: Mário, Neuza, Manoel, Alcindo, Nedy, Flavio e Enedino.
Voltando ao assunto indústria, as sementes de ucuuba adquiridas como matéria prima, passavam por três estágios antes de se transformarem em sebo vegetal:
1º Trituração das sementes.
2º Cozimento a vapor.
3º Prensagem.
Três prensas, dispostas em linha, com eixos helicoidais verticais acoplados sobre tambores de aço (vazados), executavam a tarefa de extração do óleo das sementes, o qual se transformava em sebo vegetal ao esfriar. A partir daí, o sebo derretido somado a azeite de andiroba e soda cáustica, formavam o sabão ainda líquido que esfriava em forma cúbica de madeira (desmontável) saindo de lá para ser trans­formado em barras convencionais através de guilhotina de arames, e finalmente estava pronto e acabado.
Finda a explanação sobre a indústria, volto a escrever sobre um pequeno trecho da vida de Cazuza no que se refere à contrita devoção ao Menino Deus. Nos dias 23, 24 e 25 de dezembro de todos os anos, a casa desse extraordinário devoto, transformava-se num ponto de concentração dos romeiros que vinham das regiões próximas cultuar Jesus menino. Nos dois primeiros dias, ladainhas noturnas. No último dia, presente o padre para ministrar os batizados e casamentos. Todos os dias, ao final do culto religioso dois conjuntos musicais revezavam-se na promoção de respeitáveis e inesquecíveis bailes.
Nesse tríduo festivo o galpão da fábrica transformava-se em hospedaria para crianças e adultos a repousarem em redes que traziam. Para sustentar a alimentação dos convivas temporários, Cazuza abatia um boi e, de quebra, vários porcos, patos, galinhas, e perus. Pela manhã, chocolate com bolachas. Esse chocolate que era servido em xícaras médias levando por cima ovos batidos em neve; pregou uma peça em um caboclo, o qual não vendo sair fumaça do conteúdo, deu uma avantajada golada, não podendo suportar a temperatura projetou um esguicho de chocolate em cima de um cida­dão à sua frente, que estava frajolamente enfarpelado num vistoso terno branco. Na fugaz hospedagem de três dias no barracão da fábrica, um ou outro casal, além dos curumins, traziam também o papagaio de estimação ou alguma galinha com pintinhos recém nascidos, pois deixara em sua casa apenas o cachorro, o bichano e os serimbabos sob os cuidados de vizinhos amigos.
Uma vez, em tantos anos de festa, Cazuza conseguiu trazer o salesiano arcebispo D. Antonio de Almeida Lustosa, para ministrar os sacramentos, especialmente o de crisma. No dia seguinte a sua chegada, acordou bem cedinho (a comunhão só poderia, naquela época ser distribuída a quem estivesse em jejum) improvisou um confessionário enquanto uma fila de fiéis se formava a esperar. O primeiro pecador que encabeçava a fila... Logo quem! O Maurício, o maior e mais graduado alcoólatra da paróquia, que ali estava sem saber talvez o que estava fazendo. O Arcebispo sentou-se e chamou para perto de si o primeiro da fila, o Mauricio.
- Ajoelhe-se, filho!
Maurício ajoelhou-se como bom católico que era.
- Filho. Você sabe rezar?
- Não padre.
Esse simples “não” bafejado na face de D. Antonio o fez desmaiar, porque a dose do bafo do tigre foi muito forte para quem ainda estava em jejum. Refeito da ação deletéria do hálito residual do porre mauriciano, o Arcebispo continuou:
- Você bebe filho! Não?!
- E muito! Respondeu orgulhosamente, Mauricio.
Após esse episódio, as funções religiosas seguiram normal­mente até ao regresso do Arcebispo. No último dia após a missa, o trapiche que antes estava rodeado de montarias, barcos e motores ali ancorados, foi ficando vazio, permanecendo na lembrança apenas a recordação daqueles di­as festivos, cuja euforia só voltaria no outro ano.
Após vários anos, Cazuza saiu do nosso convívio para na graça de Deus, viver a eternidade levando consigo toda aquela alegria e bondade que invadia o seu grande coração. No local da terra onde pontificava o seu ideal de contrito devoto, talvez hoje seja uma triste tapera ou outro qualquer empreendimento, apa­gando dest’arte o vestígio de uma lembrança que evaporou-se no tempo, para não mais voltar.

Glossário
1.        Taquara: denominação comum a várias espécies de gramíneas nativas da América do Sul, a maioria com caules ocos e segmentados em gomos, cujas intersecções se prendem as folhas.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

João mão-de-pau e o Coronel

João dos Santos, seu nome de batismo, era também conheci­do como João da Sant’ana, João Sampaio e finalmente, João mão-de-pau. Chamá-lo de João Sampaio, significava para ele distinção e honraria, porque Sampaio era o sobrenome do seu patrão, a quem servia com dedicação plena e respeito. Negro, estatura mediana, fino no trato com as pessoas, falava compassadamente modulando o timbre da voz, agradável tanto quanto seu patrão, o Coronel Raymundo Lopes Sampaio, saudoso ci­dadão igarapemiriense que reputo como sendo o paradigma de fidalguia, bondade e educação.
Anos a fio João trabalhou como foguista do engenho Sant’ana, indústria aguardenteira de propriedade do Coronel. João de tanto enfrentar a bocarra flamejante da fornalha da caldeira e tanto jogar achas de lenha para saciá-la, sua mão adquiriu a forma de uma patola rígida e calosa, razão pela qual ele ganhou o apelido de João mão-de-pau, e seus braços se tornaram grossos em função do seu trabalho. Ao entrar na idade provecta¹, passou a exercer a função de maquinista, vice-gerente do engenho e de zelador da lancha Sant’ana, embarcação esta que era a menina dos olhos do patrão. A ela o João dedicava cuidados especiais, estivesse vi­ajando ou não, a tratava como se fosse uma filha. Todos os dias o convés (de pau amarelo e acapu) era lavado e os metais latonados po­lidos até espelharem como ouro. A máquina à vapor se mantinha sem­pre limpa e azeitada.
João também não escapou das astuciosas brincadeiras armadas pelo meu cunhado Antonio, o qual sempre vivia a se diver­tir à custa dos outros. Em um domingo, o comércio Casa Sempre Viva funcionava a todo vapor, repleto de fregueses a barganharem preço de charque, pirarucu, farinha e peixe seco. Um camaroneiro vindo do Rio Timboí trouxe alguns quilos de camarão para vender, inclusive um poraquê, pego no arrastão e conduzido ainda vivo dentro de um latão cheio d’água. Antonio comprou o camarão e o poraquê, colocando este num pote com água para ser saboreado no dia seguinte. Antes, porém o meu cunhado fez uma experiência para testar os 300 volts emanados pelo peixe: quinze homens em fila deram-se as mãos e o primeiro meteu a mão no pote e segurou o animal. O choque emitido chegou ao último homem sem perda de intensidade. Enquanto se vangloriavam do êxi­to da experiência, eis que se aproxima do porto uma canoa impulsionada a jacumã² pelo muque do João mão-de-pau. Antes que João desembarcasse, o meu cunhado pediu sigilo a todos, quanto à existên­cia do poraquê. João entrou no comércio e cerimoniosamente disse:
- Muito bom dia a todos, meus senhores!
- Bom dia! (responderam todos)
O Antonio apertou aquela mão rígida e nodulosa e disse:
- Bom dia meu amigo. Foi Deus quem te mandou.
- Por quê?
- Vieste em boa hora. Estás vendo aquele pote ali?
- Sim.
- Eu coloquei lá uma sola de couro de boi para amaciar na água.
- Que devo fazer com ela? (perguntou João)
- Tira de lá e prepara uma junta para a minha bomba d’água que está vazando. Eu sei que tu entendes do assunto.
- Perfeitamente.
João meteu o braço pote adentro que passou com dificuldade pelo gargalo. Ao segurar o poraquê pensando ser uma sola, recebeu “lambadas” de choques elétricos. Tendo dificuldade em retirar o braço, ele levantou o pote para cima como se fosse um troféu e o arremessou contra um esteio da casa. De negro, João ficou branco de raiva a projetar con­tra o Antonio petardos de palavras candentes de baixo calão. Antonio só se limitou a pedir desculpas pela brincadeira. Passada a refrega³, Antonio ficou intrigado com a experiência e lá com os seus botões, se perguntou:
“- Como é que pode a eletricidade passar através de uma mão de pau? A madeira não é isolante?”
O Coronel, em qualquer viajem da lancha Sant’ana, obedecia a uma cronologia preestabelecida em função da maré e das condições meteorológicas do tempo, pois não expunha a sua lancha a intempéries. Vez por outra viajava para Belém a negócios e oferecia passagem a quem quisesse se transportar para a capital do Estado ou cidade do Moju. Dos seus passageiros, da cidade ou do interior de Igarapé-Miri, faziam parte autoridades, clero, comerciantes, industriais, políticos, servidores públicos e membros de tradicionais famílias da sociedade local, dentre as quais: Martins, Miranda, Pinheiro, Mácola, Lira, Mercês, Nery, Lobato, Cardoso, Leão, Trindade, Sinimbu, Costa, Corrêa, Oliveira, Fortes, Sampaio, Lopes, Affonso, Almeida, Feio, Pantoja, Amaral, Castelo Branco e outros.
Quando a maré atingia a plenitude de enchente, a lancha passava o canal de Igarapé-Mirí, para descer o rio Moju a jusante4, devorando em milhas os extensos estirões marginais do caudaloso rio, passando pela cidade do Moju, pela grande serraria do José Elias e por outras pequenas localidades ribeirinhas. E assim, a viagem seguia no ritmo normal, até o seu destino. Se ao aproximar-se da confluência da foz dos rios Moju e Acará, e a maré ainda vazasse, ele mandava ancorar a lancha no trapiche do seu amigo Cabral (Serraria “A Moderna”). Quando a maré dobrava (enchente), mandava soltar os cabos para atravessar aquele largo estuário, de onde já se avistava Belém. Essa sua pre­caução ligava-se ao fato, de que com a enchente as ondas encrespadas sumiam e o Coronel podia navegar em águas plácidas, porque assim merecia a sua lancha Sant’ana.
Quando todos já se preparavam para a chegada, o Coronel dizia aos seus passageiros:
- Bem, amigos. A minha viagem não foi feita especifi­camente no sentido de vender passagens, entretanto uma pequena e espontânea contribuição viria ajudar as despesas de viagem e aqui ficam os meus agradecimentos.
O Coronel, quando chegava a Belém, sempre fazia uma fezinha no jogo do bicho, tanto que uma hora antes de atracar, ele chamava o João mão de pau, e determinava:
- Olha João! Entrega a sala de máquinas ao ajudante, estica a tua rede lá na popa, dorme e sonha. Preciso de um palpi­te para jogar quando chegar a Belém.
- Sim senhor!
Ora, mesmo que ele não sonhasse, deixaria o patrão frustrado?
Como de outras vezes, a lancha singrava5 já em plena baia de Guajará prestes a alcear os cabos no trapiche do Porto do Sal. João já estava na sala de máquinas, no aguardo do processo de atracação. Máquina parada, fogo abafado, bagagens pra fora, pas­sageiros em terra firme e guarnição em descanso, isto era o fim de mais uma viagem da Sant’ana.
Agora chegou a hora de uma conversa ao pé do ouvido do João.
- Hem João! Sonhaste? Conta-me lá.
- Ah! Coronel. Eu sonhei que estava pescando na beira do rio, quando do meio do aturiá6 surgiu D. Eponina (filha do patrão) toda vestida de branco, voando para longe e dobrou na ponta do estirão.
- Já sei: Avestruz não voa, corre. Galo só voa para se agasalhar. Pavão só faz pose e desfila orgulhosamente. Peru é uma besta, só faz roda abre o leque e estufa o peito gorgolejando toda hora. Então, só pode ser a Águia.
Se o Coronel ganhava ou perdia ninguém podia afirmar.
Aproveitando um precioso espaço que abro neste capítulo, presto minhas homenagens ao saudoso amigo Coronel Raymundo Lopes Sampaio, homem elegante, direito e generoso. Em razão da autenticidade do seu caráter simples e humano, relacionava-se com todas as pessoas, fossem elas pobres ou ricas, brancas ou negras, velhas ou novas.
Naquela época eu tive conhecimento de um fato que sinalizou o que se podia esperar de um espírito de desprendimento e solidariedade. Realizava-se uma grande festa no amplo salão da casa de um abastado industrial do Rio Maiauatá, onde belas moças rodopiavam ao ritmo melódico daquela quadra de sadio romantismo. Num dos números musicais executados, o Dr. Juiz de Direito da Comarca, levantou-se e dirigiu-se a uma das filhas do anfitrião solicitando uma contradança, que lhe foi deselegantemente negada pela jovem. O Coronel Sampaio, que a tudo assistia, saiu dançando com a filha Eponina, e em seguida ofereceu ao Juiz para que continuasse dançando. O motivo que levou a dama a desfeiteá-lo, foi a cor negra do magistrado. Na realidade, faltou a moça delicadeza e hospitalidade. No fundo, no fundo... ficou explícito a negatividade dos princípios de educação e, como estudante, o desconhecimento de que a discriminação racional ofende a Deus e fere os direitos humanos. O cavalheiro discriminado foi o Dr. Agnano monteiro Lopes, magistrado íntegro, inteligente, de vasto poder jurídico, o qual após alguns anos como juiz da capital apresentou-se como desembargador.
Fechando este capítulo, resolvi comparar as três pessoas gradas, citadas aqui, com três espécies de madeira nobre: João mão de pau é o Acapu rijo, Coronel Sampaio é o mogno de fibra acetinada para móveis de requinte, Agnano Monteiro Lopes, importante madeira de lei produzida pela árvore de coração negro, dura, inflexível e duradoura.

Glossário
1.        Idade provecta – a velhice.
2.        Jacumã - Bras. Pequeno remo que serve de leme nas canoas.
3.     Refrega - 1. Combate; recontro; peleja. 2. Trabalho; lida. refrega de vento: rajada.
4.     Jusante - 1. Baixa-mar. 2. Refluxo da maré. 3. Lado para onde desce a água da maré vazante, ou para onde se dirige a água corrente (em oposição a montante).
5.        Singrava – Navegar à vela, velejar.
6.        AturiáBot. Árvore leguminosa-papilionáceae.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Mel de “boa” qualidade

Houve uma época, que em Igarapé-Miri existiam os fabricantes de açúcar mascavo, também chamado de açúcar moreno. Paralelamente a esses produtos, fabricavam também o mel e a rapadura produtos esses que tinham como matéria prima a cana de açúcar. A elaboração dos produtos baseava-se na fervura do caldo da cana (gara­pa) em tachos de cobre, até atingir o ponto ideal.
Obtido o caldo da cana através dos moedores de ferro ou madeira, este subproduto submetia-se à fervura. Dependendo da menor ou maior exposição ao fogo, chegavam ao produto acabado, que eram açúcar, mel ou rapadura. O açúcar era logo acondicionado em paneiros forrados com folha de “ubim”; a rapadura, de consistência sólida (quando ainda líquida), colocada em fôrmas de madeira e adquiria no resfriamento a forma poliédrica; o mel, uma vez pronto, recebia como acondicionamento potes de barro lacrados com folha de guarumã.
O mel de boa qualidade deveria ser limpo e grosso a ponto de sair do pote usando-se garfo ou colher, era o chamado de “vira-pote”, tal qual o procedente de “Sirituba”, rio do município de Abaetetuba, onde produziam o melhor mel da região tocantina. Em geral, os fabricantes de mel, cujo produto primava pela boa qualidade, adicionavam no ato da fabricação elementos aromatizantes, para aprimorar o sabor.
Um dia, o velho “Branco Velho” (Manoel Pinheiro Lopes) pai do meu cunhado Antonio, resolveu comprar alguns potes com mel para atender a sua freguesia. Saindo do seu comércio, a casa “Sempre viva” no rio Maiauatá próximo a foz do rio Timboí, entrou neste último até a fabriqueta de um tal de Joca. Lá chegando disse:
- Bom dia velho Joca.
- Bom dia patrão. O que manda?
- Por hora, estou precisando de alguns potes com mel de boa qualidade.
- Falou em boa qualidade é comigo.
- Pois bem. Então eu quero ver a consistência, qualidade e o preço do produto.
- Pois não! Entre.
Sobre o chão de terra batida, uma velha tábua servia de base a uns quinze potes com mel. No primeiro pote o velho Branco, introduziu uma tala de jupatí. Ao puxar a tala veio junto, uma aza de barata.
- O que é isso aqui Joca?
- Ah patrão! é... é... folha de canela.
Outro pote foi aberto, nova sondagem, só que desta vez veio o corpo da barata.
- E isso aqui Joca, o que é?
- Bem ... Bem ... O que o senhor está vendo aí é uma boneca de erva doce.
         Outro pote foi igualmente aberto e no mel aderente à tala, veio um fino rabo de lagarto.
- Joca, Joca... O que é isto comprido? É uma cobra?
- Nada disso Patrão. Eu sempre uso ervas aromatizantes durante a fervura. Isso aí é uma folha de capim-santo.
- E esses granulados pretos no mel? O que é?
- Você talvez não saiba, mas eu uso no mel o cravinho da índia. É isso que aparece.
(Os pigmentos pretos no mel eram cocô de barata)
         O velho branco, “satisfeito” com os testes de qualidade, disse:
- Olha Joca, de fato o teu produto é de boa e primeira qualidade e, assim sendo, o preço deverá ser elevado, fugindo, portanto das minhas cogitações. Eu vou comprar em outra fábrica, um mel de segunda, que por certo será mais barato.
- Até logo!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

“Padre Emílio”

Quem não conhecia o saudoso Padre Emílio Martins? Ninguém.
Ele, embora fosse espanhol de nascimento tinha como segunda pátria o Brasil, e amava o Pará.
Eu o conheci já idoso, como vigário da matriz de Sant’ana, na cidade de Igarapé-Miri, minha terra natal, função religiosa que exercia naquela cidade, anos a fio. No palmilhar de suas desobrigas nos limites de sua paróquia, não só era amado como respeitado por todos. Seu nome e virtudes ultrapassavam os limites do município no eixo: Belém, Moju, Cametá, Mocajuba, Baião... Quiçá cidades, vilas e povoações da calha tocantina.
Aonde chegava transmitia simpatia brotada do bom humor e da elação² que o condicionava a brincar com todo mundo e afagar as crianças. A sua popularidade se fazia tão evidente, que ninguém lhe cobrava passagem tanto nos bondes da capital como nas embarcações fluviais da linha tocantina. No desempenho do seu ministério religioso se fazia presente a generosidade, que lhe era inata. Batizava, casava sem se preocupar com o valor das espórtulas³, batizados, etc. De pessoas pobres, com poder aquisitivo insuficiente, nada cobrava.
Além de sua profissão de sacerdote, chegou a cursar até ao terceiro ano de medicina, não terminado por motivos superáveis, mas de qualquer modo, esses conhecimentos adicionais serviram para socorrer pessoas em certas ocasiões emergenciais num local totalmente carente de médicos. Certa vez, ao chegar a Casa "Sempre Viva" do Manoel Pinheiro Lopes (o Branco Velho), veio de encontrar uma das filhas do "Branco", com febre alta que já se prolongava por mais de duas semanas sem ser debelada. Padre Emílio fez a moça sentar numa tina com água quente até a cintura, numa temperatura suportável e sobre a cabeça da doente, derramou um pote de água fria. Imediatamente a febre passou e não voltou.
Em se tratando de alimentação, o padre era um inveterado glutão. Aonde chegava, (na casa dos seus paroquianos) desconhecendo o relógio, que não combinava com o seu estômago, após abraçar os donos da casa, ele ia passando para cozinha a destampar panelas para certificar-se que de fato não estavam vazias. A cozinheira após lhe beijar a mão, lhe dava uma prova de cada panela, findo o que ele dizia: Está aprovado o cardápio para o al­moço.
Um dia ele estava em Belém. Era festa de N.Sra. de  Nazaré. Chegando á nossa casa a Praça Frei Caetano Brandão (Largo da Sé), onde morava meu cunhado Antonio e minha irmã Alice. A me­sa estava posta com os acepipes apropriados para comemorar o CÍRIO. Convidado, o padre Emílio, sentou-se conosco em redor da mesa e almoçou lautamente4, passando pelo pato no tucupi, galinha e acessórios.
Terminando o almoço meu cunhado disse:
- Agora padre, vamos esperar na sala um cafezinho novo e cheiroso.
- Não, Totônio, Eu não posso demorar.
- Por que, padre?
- Os padres da Basílica de Nazaré estão esperando-me para o almoço. Até logo.
Tendo de viajar para Belém, quando ainda morava no interior, o meu cunhado ao aportar à cidade de Igarapé-Miri, enxergou o padre Emílio entre o pessoal que estava sobre o trapiche. Mastigava algo, que só ao desembarcar veio a constatar que do bolso esquerdo da batina ele tirava tanisca de pirarucu frito que jogava na boca juntamente cora farinha que tirava do bolso direito.
Uma noite, padre Emílio, viajava do rio Maiauatá para a cidade, numa pequena embarcação à faia, protegido do sol e da chuva por uma cobertura tecida com palha de ubuçu e talas de jupati. De repente, relâmpagos e trovões anunciaram a precipitação de uma torrencial tempestade que de fato desabou a tornar revoltas as águas do rio. Ao passar em frente à ponta do Bexiga*, um ganido an­gustiante de um cão abandonado, se fez ouvir em meio a ventania que açoitava as árvores do beiradão. O padre mandou o remeiro encostar a embarcação e recolheu o animal que tiritava de frio. Esse cão afeiçoou-se ao padre, ao ponto de não contrariar o ditame de que o cão é o maior amigo do homem. Quando o padre viajava pelo interior do município, um seu vizinho cuidava e gostava muito do animal.
Anos se passaram até que o vigário foi transferido para outra paróquia em outro município distante. Ao viajar o vizi­nho pediu para ficar com o cachorro e foi atendido. Muitos anos após a sua ausência, um dia o padre Emílio desembarcou em Igarapé-Miri, e um cão vindo lá de terra pulava em sua frente fazendo a maior festa: era o seu amigo canino que salvara da tempestade.
O padre Emílio era alto, robusto e tinha uma saúde de ferro, porém sofria de uma hérnia que nunca quis operar e por essa razão, em determinadas ocasiões sofria muito. Um dia ele via­java na moto-embarcação "Lopes Filho" com destino à Belém. Nessa viajem, dentre outras pessoas, iam: meu cunhado Antonio e o seu em­pregado Pedro, mais conhecido como Pedro Gargalhada, sobrenome originário do seu modo de rir. A viagem seguia mansa e pacífica no deslizar da embarcação sobre a lâmina aquática do Moju. Pedro, na proa, ia contando lorotas ao piloto Manoel Dolores, e de quando em vez, explosões de gargalhadas eram ouvidas lá na popa. As basófias do Gargalhada, consistiam em querer convencer o Manoel de que ele, Pedro, era o “tal” nas atitudes que tomava:
- Olha Manoel, eu não dou arrego a patrão.
- Como assim Pedro?
- Patrão não grita comigo, patrão me respeita e patrão tem que me tratar bem.
- Não achas que estás muito exigente?
- Não. E acima de tudo eu não puxo saco de patrão.
- É mesmo?
- Se um dia tiver de puxar o saco de patrão, antes eu peço as contas.
A conversa entre os dois ia animada, quando algo aconteceu lá na popa da embarcação: foi a hérnia do padre, que havia arriado, e passava mal. O meu cunhado Antonio, não dispunha de remédio apropriado e numa situação como essa, a única providên­cia viável seria o recolhimento da hérnia:
- Pedro! Pedro!
- Pronto patrão. O que deseja?
- Vem aqui, recolher a hérnia do padre.
- Espalma a tua mão.
Por não haver outro remédio apropriado e disponível, o meu cunhado derramou nas mãos do Pedro um pouco de óleo de cicuta (único existente a bordo) mandando que fizesse a massagem da região escrotal para o abdômen.
Após o recolhimento da hérnia, o Pedro, voltou para junto do Manoel, que detonava gargalhadas a vários decibéis.
- O que é isso aqui? Vocês não respeitam o padre? Protestou o meu cunhado.
Respondeu o Manoel:
- Eu não estou rindo do padre. Eu estou rindo do Pedro porque antes ele disse que nunca puxaria saco de ninguém e agora acaba de puxar o saco do padre.
Já passado vários anos, já velho, o padre Emílio foi recolhido ao Arcebispado, e esporadicamente rezava a missa sem pertencer a nenhuma paróquia. Continuava a ser um bom talher a comer tudo que pudesse ser deglutido.
Em setembro, chegara o dia dos festejos da padroeira da vila Maiauatá, não havia padre, nem mesmo da sede do município. Em Belém, o meu cunhado foi procurado por um dos diretores da festa, no sentido de, por seu intermédio, conseguir um padre. Meu cunhado Antonio, tendo como endereço o largo da Sé, vizinho do Arcebispado, julgava-se apto a negociar um padre, junto ao Arcebispo, e para lá se dirigiu:
- Senhor Arcebispo. Eu preciso de um padre para ministrar a festa da vila Maiauatá
- Infelizmente estamos com escassez de padres. Não tenho nenhum disponível para setembro.
         O meu cunhado lembrou-se do padre Emílio, que segundo soube, estava no arcebispado. Disse:
- E o padre Emílio? Não está disponível?
- Pelo amor de Deus, não me fale no padre Emílio. Há três meses pediram-me para ele celebrar uma festa no interior. Acontece que comeu sardinha em conserva (estragada) de madrugada. Chegando aqui (quase morto) direto para o hospital, onde ficou por muito tempo, entre a vida e a morte. Padre Emílio não!
         Meu cunhado deu marcha a ré e despediu-se, convicto mais uma vez de que o padre Emílio continuava a ser o mesmo glutão de sempre.

GLOSSÁRIO
1.        Desobriga - Relig. catól. Cumprimento do preceito quaresmal.
2.        Elação – Altivez / Elevação, sublimidade.
3.        Espórtulas - Pequena quantia com que se retribui um serviço feito por quem não tem salário determinado. Gorjeta.
4.        Lautamente – Adj. Lauto: Abundante, magnífico.


*Igarapé da região de Igarapé-Miri.


___________________________________________
Editado por: Elainne Caroline Dias