quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Festa do menino deus

A Fábrica Menino Deus ficava localizada à margem do Rio Maiauatá, município de Igarapé-Mirí. A atividade industrial do empreendimento voltava-se para a fabricação de sabão, cuja matéria prima era a semente de Ucuuba detentora de grande teor oleaginoso. Hoje, essa árvore está quase extinta em decorrência da devastação indiscrimi­nada pelos madeireiros que a vendem com o nome “Virola” (Surinamensis ou Sevífera).
Eu nasci e cresci conhecendo as três sagradas árvores da várzea igarapemiriense: Ucuuba, Andiroba e Seringueira. Todos respeitavam essa dádiva da natureza. A seringueira como vaca leiteira a produzir látex, cuja manipulação alimentava o magro orçamento dos caboclos ribeirinhos. As sementes de Ucuuba e Andiroba eram colhidas debaixo das respectivas árvores ou, no rio onde flu­tuavam levadas pela maré lançante que banhava a várzea. Essas sementes flutuantes eram colhidas pelos caboclos usando um paneirinho afunilado amarrado na extremidade de uma taquara¹ fina.
Essas sementes, uma vez colhidas, eram vendidas pelos caboclos no comércio em defesa do baco-baco diário. Posteriormente as casas comerciais vendiam para as fábricas extratoras de óleo vegetal e produtoras de sabão. O excedente, os comerciantes exportavam para Belém.
Uma das fábricas, a Menino Deus, assentava-se debaixo de um vasto galpão de madeira, coberto com telhas de barro, galpão esse que se ligava ao espaço residencial através de ponte de madeira. Da fábrica extendia-se para a margem do rio, o trapiche de embarque e desembarque. A casa residencial era construída de enchimento em barro, toda pintada de azul, tendo dentre os demais compartimentos, um oitão que se projetava do principal formando um grande salão em cuja extremidade ficava a capela onde ficava entronizada a imagem do Menino Deus. Fechada a capela, o salão se transformava em pista de baile.
Quem era o proprietário desse empreendimento? José Lopes Sampaio, cidadão respeitável pertencente à tradicional família igarapemiriense. No meio de seus amigos mais íntimos era conhecido como Cazuza Sampaio. Estatura mediana, gor­do, dinâmico, timbre de voz em alta tonalidade e ostentava um grosso bigode negro. Exemplar chefe de família junto a esposa Do­na Sinhara (irmã do meu cunhado Antonio), mulher que agasalhava no coração o mais alto sentimento de bondade que distribuía com os filhos: Mário, Neuza, Manoel, Alcindo, Nedy, Flavio e Enedino.
Voltando ao assunto indústria, as sementes de ucuuba adquiridas como matéria prima, passavam por três estágios antes de se transformarem em sebo vegetal:
1º Trituração das sementes.
2º Cozimento a vapor.
3º Prensagem.
Três prensas, dispostas em linha, com eixos helicoidais verticais acoplados sobre tambores de aço (vazados), executavam a tarefa de extração do óleo das sementes, o qual se transformava em sebo vegetal ao esfriar. A partir daí, o sebo derretido somado a azeite de andiroba e soda cáustica, formavam o sabão ainda líquido que esfriava em forma cúbica de madeira (desmontável) saindo de lá para ser trans­formado em barras convencionais através de guilhotina de arames, e finalmente estava pronto e acabado.
Finda a explanação sobre a indústria, volto a escrever sobre um pequeno trecho da vida de Cazuza no que se refere à contrita devoção ao Menino Deus. Nos dias 23, 24 e 25 de dezembro de todos os anos, a casa desse extraordinário devoto, transformava-se num ponto de concentração dos romeiros que vinham das regiões próximas cultuar Jesus menino. Nos dois primeiros dias, ladainhas noturnas. No último dia, presente o padre para ministrar os batizados e casamentos. Todos os dias, ao final do culto religioso dois conjuntos musicais revezavam-se na promoção de respeitáveis e inesquecíveis bailes.
Nesse tríduo festivo o galpão da fábrica transformava-se em hospedaria para crianças e adultos a repousarem em redes que traziam. Para sustentar a alimentação dos convivas temporários, Cazuza abatia um boi e, de quebra, vários porcos, patos, galinhas, e perus. Pela manhã, chocolate com bolachas. Esse chocolate que era servido em xícaras médias levando por cima ovos batidos em neve; pregou uma peça em um caboclo, o qual não vendo sair fumaça do conteúdo, deu uma avantajada golada, não podendo suportar a temperatura projetou um esguicho de chocolate em cima de um cida­dão à sua frente, que estava frajolamente enfarpelado num vistoso terno branco. Na fugaz hospedagem de três dias no barracão da fábrica, um ou outro casal, além dos curumins, traziam também o papagaio de estimação ou alguma galinha com pintinhos recém nascidos, pois deixara em sua casa apenas o cachorro, o bichano e os serimbabos sob os cuidados de vizinhos amigos.
Uma vez, em tantos anos de festa, Cazuza conseguiu trazer o salesiano arcebispo D. Antonio de Almeida Lustosa, para ministrar os sacramentos, especialmente o de crisma. No dia seguinte a sua chegada, acordou bem cedinho (a comunhão só poderia, naquela época ser distribuída a quem estivesse em jejum) improvisou um confessionário enquanto uma fila de fiéis se formava a esperar. O primeiro pecador que encabeçava a fila... Logo quem! O Maurício, o maior e mais graduado alcoólatra da paróquia, que ali estava sem saber talvez o que estava fazendo. O Arcebispo sentou-se e chamou para perto de si o primeiro da fila, o Mauricio.
- Ajoelhe-se, filho!
Maurício ajoelhou-se como bom católico que era.
- Filho. Você sabe rezar?
- Não padre.
Esse simples “não” bafejado na face de D. Antonio o fez desmaiar, porque a dose do bafo do tigre foi muito forte para quem ainda estava em jejum. Refeito da ação deletéria do hálito residual do porre mauriciano, o Arcebispo continuou:
- Você bebe filho! Não?!
- E muito! Respondeu orgulhosamente, Mauricio.
Após esse episódio, as funções religiosas seguiram normal­mente até ao regresso do Arcebispo. No último dia após a missa, o trapiche que antes estava rodeado de montarias, barcos e motores ali ancorados, foi ficando vazio, permanecendo na lembrança apenas a recordação daqueles di­as festivos, cuja euforia só voltaria no outro ano.
Após vários anos, Cazuza saiu do nosso convívio para na graça de Deus, viver a eternidade levando consigo toda aquela alegria e bondade que invadia o seu grande coração. No local da terra onde pontificava o seu ideal de contrito devoto, talvez hoje seja uma triste tapera ou outro qualquer empreendimento, apa­gando dest’arte o vestígio de uma lembrança que evaporou-se no tempo, para não mais voltar.

Glossário
1.        Taquara: denominação comum a várias espécies de gramíneas nativas da América do Sul, a maioria com caules ocos e segmentados em gomos, cujas intersecções se prendem as folhas.

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