sexta-feira, 20 de agosto de 2010

João mão-de-pau e o Coronel

João dos Santos, seu nome de batismo, era também conheci­do como João da Sant’ana, João Sampaio e finalmente, João mão-de-pau. Chamá-lo de João Sampaio, significava para ele distinção e honraria, porque Sampaio era o sobrenome do seu patrão, a quem servia com dedicação plena e respeito. Negro, estatura mediana, fino no trato com as pessoas, falava compassadamente modulando o timbre da voz, agradável tanto quanto seu patrão, o Coronel Raymundo Lopes Sampaio, saudoso ci­dadão igarapemiriense que reputo como sendo o paradigma de fidalguia, bondade e educação.
Anos a fio João trabalhou como foguista do engenho Sant’ana, indústria aguardenteira de propriedade do Coronel. João de tanto enfrentar a bocarra flamejante da fornalha da caldeira e tanto jogar achas de lenha para saciá-la, sua mão adquiriu a forma de uma patola rígida e calosa, razão pela qual ele ganhou o apelido de João mão-de-pau, e seus braços se tornaram grossos em função do seu trabalho. Ao entrar na idade provecta¹, passou a exercer a função de maquinista, vice-gerente do engenho e de zelador da lancha Sant’ana, embarcação esta que era a menina dos olhos do patrão. A ela o João dedicava cuidados especiais, estivesse vi­ajando ou não, a tratava como se fosse uma filha. Todos os dias o convés (de pau amarelo e acapu) era lavado e os metais latonados po­lidos até espelharem como ouro. A máquina à vapor se mantinha sem­pre limpa e azeitada.
João também não escapou das astuciosas brincadeiras armadas pelo meu cunhado Antonio, o qual sempre vivia a se diver­tir à custa dos outros. Em um domingo, o comércio Casa Sempre Viva funcionava a todo vapor, repleto de fregueses a barganharem preço de charque, pirarucu, farinha e peixe seco. Um camaroneiro vindo do Rio Timboí trouxe alguns quilos de camarão para vender, inclusive um poraquê, pego no arrastão e conduzido ainda vivo dentro de um latão cheio d’água. Antonio comprou o camarão e o poraquê, colocando este num pote com água para ser saboreado no dia seguinte. Antes, porém o meu cunhado fez uma experiência para testar os 300 volts emanados pelo peixe: quinze homens em fila deram-se as mãos e o primeiro meteu a mão no pote e segurou o animal. O choque emitido chegou ao último homem sem perda de intensidade. Enquanto se vangloriavam do êxi­to da experiência, eis que se aproxima do porto uma canoa impulsionada a jacumã² pelo muque do João mão-de-pau. Antes que João desembarcasse, o meu cunhado pediu sigilo a todos, quanto à existên­cia do poraquê. João entrou no comércio e cerimoniosamente disse:
- Muito bom dia a todos, meus senhores!
- Bom dia! (responderam todos)
O Antonio apertou aquela mão rígida e nodulosa e disse:
- Bom dia meu amigo. Foi Deus quem te mandou.
- Por quê?
- Vieste em boa hora. Estás vendo aquele pote ali?
- Sim.
- Eu coloquei lá uma sola de couro de boi para amaciar na água.
- Que devo fazer com ela? (perguntou João)
- Tira de lá e prepara uma junta para a minha bomba d’água que está vazando. Eu sei que tu entendes do assunto.
- Perfeitamente.
João meteu o braço pote adentro que passou com dificuldade pelo gargalo. Ao segurar o poraquê pensando ser uma sola, recebeu “lambadas” de choques elétricos. Tendo dificuldade em retirar o braço, ele levantou o pote para cima como se fosse um troféu e o arremessou contra um esteio da casa. De negro, João ficou branco de raiva a projetar con­tra o Antonio petardos de palavras candentes de baixo calão. Antonio só se limitou a pedir desculpas pela brincadeira. Passada a refrega³, Antonio ficou intrigado com a experiência e lá com os seus botões, se perguntou:
“- Como é que pode a eletricidade passar através de uma mão de pau? A madeira não é isolante?”
O Coronel, em qualquer viajem da lancha Sant’ana, obedecia a uma cronologia preestabelecida em função da maré e das condições meteorológicas do tempo, pois não expunha a sua lancha a intempéries. Vez por outra viajava para Belém a negócios e oferecia passagem a quem quisesse se transportar para a capital do Estado ou cidade do Moju. Dos seus passageiros, da cidade ou do interior de Igarapé-Miri, faziam parte autoridades, clero, comerciantes, industriais, políticos, servidores públicos e membros de tradicionais famílias da sociedade local, dentre as quais: Martins, Miranda, Pinheiro, Mácola, Lira, Mercês, Nery, Lobato, Cardoso, Leão, Trindade, Sinimbu, Costa, Corrêa, Oliveira, Fortes, Sampaio, Lopes, Affonso, Almeida, Feio, Pantoja, Amaral, Castelo Branco e outros.
Quando a maré atingia a plenitude de enchente, a lancha passava o canal de Igarapé-Mirí, para descer o rio Moju a jusante4, devorando em milhas os extensos estirões marginais do caudaloso rio, passando pela cidade do Moju, pela grande serraria do José Elias e por outras pequenas localidades ribeirinhas. E assim, a viagem seguia no ritmo normal, até o seu destino. Se ao aproximar-se da confluência da foz dos rios Moju e Acará, e a maré ainda vazasse, ele mandava ancorar a lancha no trapiche do seu amigo Cabral (Serraria “A Moderna”). Quando a maré dobrava (enchente), mandava soltar os cabos para atravessar aquele largo estuário, de onde já se avistava Belém. Essa sua pre­caução ligava-se ao fato, de que com a enchente as ondas encrespadas sumiam e o Coronel podia navegar em águas plácidas, porque assim merecia a sua lancha Sant’ana.
Quando todos já se preparavam para a chegada, o Coronel dizia aos seus passageiros:
- Bem, amigos. A minha viagem não foi feita especifi­camente no sentido de vender passagens, entretanto uma pequena e espontânea contribuição viria ajudar as despesas de viagem e aqui ficam os meus agradecimentos.
O Coronel, quando chegava a Belém, sempre fazia uma fezinha no jogo do bicho, tanto que uma hora antes de atracar, ele chamava o João mão de pau, e determinava:
- Olha João! Entrega a sala de máquinas ao ajudante, estica a tua rede lá na popa, dorme e sonha. Preciso de um palpi­te para jogar quando chegar a Belém.
- Sim senhor!
Ora, mesmo que ele não sonhasse, deixaria o patrão frustrado?
Como de outras vezes, a lancha singrava5 já em plena baia de Guajará prestes a alcear os cabos no trapiche do Porto do Sal. João já estava na sala de máquinas, no aguardo do processo de atracação. Máquina parada, fogo abafado, bagagens pra fora, pas­sageiros em terra firme e guarnição em descanso, isto era o fim de mais uma viagem da Sant’ana.
Agora chegou a hora de uma conversa ao pé do ouvido do João.
- Hem João! Sonhaste? Conta-me lá.
- Ah! Coronel. Eu sonhei que estava pescando na beira do rio, quando do meio do aturiá6 surgiu D. Eponina (filha do patrão) toda vestida de branco, voando para longe e dobrou na ponta do estirão.
- Já sei: Avestruz não voa, corre. Galo só voa para se agasalhar. Pavão só faz pose e desfila orgulhosamente. Peru é uma besta, só faz roda abre o leque e estufa o peito gorgolejando toda hora. Então, só pode ser a Águia.
Se o Coronel ganhava ou perdia ninguém podia afirmar.
Aproveitando um precioso espaço que abro neste capítulo, presto minhas homenagens ao saudoso amigo Coronel Raymundo Lopes Sampaio, homem elegante, direito e generoso. Em razão da autenticidade do seu caráter simples e humano, relacionava-se com todas as pessoas, fossem elas pobres ou ricas, brancas ou negras, velhas ou novas.
Naquela época eu tive conhecimento de um fato que sinalizou o que se podia esperar de um espírito de desprendimento e solidariedade. Realizava-se uma grande festa no amplo salão da casa de um abastado industrial do Rio Maiauatá, onde belas moças rodopiavam ao ritmo melódico daquela quadra de sadio romantismo. Num dos números musicais executados, o Dr. Juiz de Direito da Comarca, levantou-se e dirigiu-se a uma das filhas do anfitrião solicitando uma contradança, que lhe foi deselegantemente negada pela jovem. O Coronel Sampaio, que a tudo assistia, saiu dançando com a filha Eponina, e em seguida ofereceu ao Juiz para que continuasse dançando. O motivo que levou a dama a desfeiteá-lo, foi a cor negra do magistrado. Na realidade, faltou a moça delicadeza e hospitalidade. No fundo, no fundo... ficou explícito a negatividade dos princípios de educação e, como estudante, o desconhecimento de que a discriminação racional ofende a Deus e fere os direitos humanos. O cavalheiro discriminado foi o Dr. Agnano monteiro Lopes, magistrado íntegro, inteligente, de vasto poder jurídico, o qual após alguns anos como juiz da capital apresentou-se como desembargador.
Fechando este capítulo, resolvi comparar as três pessoas gradas, citadas aqui, com três espécies de madeira nobre: João mão de pau é o Acapu rijo, Coronel Sampaio é o mogno de fibra acetinada para móveis de requinte, Agnano Monteiro Lopes, importante madeira de lei produzida pela árvore de coração negro, dura, inflexível e duradoura.

Glossário
1.        Idade provecta – a velhice.
2.        Jacumã - Bras. Pequeno remo que serve de leme nas canoas.
3.     Refrega - 1. Combate; recontro; peleja. 2. Trabalho; lida. refrega de vento: rajada.
4.     Jusante - 1. Baixa-mar. 2. Refluxo da maré. 3. Lado para onde desce a água da maré vazante, ou para onde se dirige a água corrente (em oposição a montante).
5.        Singrava – Navegar à vela, velejar.
6.        AturiáBot. Árvore leguminosa-papilionáceae.

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