Houve uma época, que em Igarapé-Miri existiam os fabricantes de açúcar mascavo, também chamado de açúcar moreno. Paralelamente a esses produtos, fabricavam também o mel e a rapadura produtos esses que tinham como matéria prima a cana de açúcar. A elaboração dos produtos baseava-se na fervura do caldo da cana (garapa) em tachos de cobre, até atingir o ponto ideal.
Obtido o caldo da cana através dos moedores de ferro ou madeira, este subproduto submetia-se à fervura. Dependendo da menor ou maior exposição ao fogo, chegavam ao produto acabado, que eram açúcar, mel ou rapadura. O açúcar era logo acondicionado em paneiros forrados com folha de “ubim”; a rapadura, de consistência sólida (quando ainda líquida), colocada em fôrmas de madeira e adquiria no resfriamento a forma poliédrica; o mel, uma vez pronto, recebia como acondicionamento potes de barro lacrados com folha de guarumã.
O mel de boa qualidade deveria ser limpo e grosso a ponto de sair do pote usando-se garfo ou colher, era o chamado de “vira-pote”, tal qual o procedente de “Sirituba”, rio do município de Abaetetuba, onde produziam o melhor mel da região tocantina. Em geral, os fabricantes de mel, cujo produto primava pela boa qualidade, adicionavam no ato da fabricação elementos aromatizantes, para aprimorar o sabor.
Um dia, o velho “Branco Velho” (Manoel Pinheiro Lopes) pai do meu cunhado Antonio, resolveu comprar alguns potes com mel para atender a sua freguesia. Saindo do seu comércio, a casa “Sempre viva” no rio Maiauatá próximo a foz do rio Timboí, entrou neste último até a fabriqueta de um tal de Joca. Lá chegando disse:
- Bom dia velho Joca.
- Bom dia patrão. O que manda?
- Por hora, estou precisando de alguns potes com mel de boa qualidade.
- Falou em boa qualidade é comigo.
- Pois bem. Então eu quero ver a consistência, qualidade e o preço do produto.
- Pois não! Entre.
Sobre o chão de terra batida, uma velha tábua servia de base a uns quinze potes com mel. No primeiro pote o velho Branco, introduziu uma tala de jupatí. Ao puxar a tala veio junto, uma aza de barata.
- O que é isso aqui Joca?
- Ah patrão! é... é... folha de canela.
Outro pote foi aberto, nova sondagem, só que desta vez veio o corpo da barata.
- E isso aqui Joca, o que é?
- Bem ... Bem ... O que o senhor está vendo aí é uma boneca de erva doce.
Outro pote foi igualmente aberto e no mel aderente à tala, veio um fino rabo de lagarto.
- Joca, Joca... O que é isto comprido? É uma cobra?
- Nada disso Patrão. Eu sempre uso ervas aromatizantes durante a fervura. Isso aí é uma folha de capim-santo.
- E esses granulados pretos no mel? O que é?
- Você talvez não saiba, mas eu uso no mel o cravinho da índia. É isso que aparece.
(Os pigmentos pretos no mel eram cocô de barata)
O velho branco, “satisfeito” com os testes de qualidade, disse:
- Olha Joca, de fato o teu produto é de boa e primeira qualidade e, assim sendo, o preço deverá ser elevado, fugindo, portanto das minhas cogitações. Eu vou comprar em outra fábrica, um mel de segunda, que por certo será mais barato.
- Até logo!
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