Negro, de mediana estatura, barrigudo, pernas arqueadas, usava chapéu preto de feltro surrado e nos pés um chinelo de couro. Registrava no seu currículo profissional o diploma de analfabetismo da “Universidade do rio Anapu”, município de Igarapé-Mirí. No contato que mantinha com qualquer pessoa, exigia dela que lhe chamasse de doutor, chegando mesmo a não atender se o paciente não antepusesse ao seu nome a titulagem de doutor. Quando chamado, viajava rio abaixo ou acima numa canoa com tolda, que era impulsionada a remo de faia por intermédio de um remeiro seu empregado. Se no trajeto alguém da margem do rio o chamasse:
- Isidoro... Ei, Isidoro!
Ele dizia ao remeiro:
- Rema, rema. Não para de remar!
- Ei, Dr. Isidoro, Dr. Isidoro!
- Volta, volta! Vamos atender a pessoa que me chamou.
Todos os moradores daquela região conheciam o seu reboquinho vermelho de tolda amarela, e se alguém estivesse doente o chamavam aos gritos. Se ele passava do outro lado do rio acenavam com uma toalha até ele atender.
Quando viajava, sempre levava um caixote de medicamentos do seu laboratório de fundo de quintal a base de ervas cozidas (ditas medicinais), acondicionadas em garrafas de quartilho1 e meio, fechadas com rolha de buruti. O “doutor” também receitava remédios alopáticos sem, entretanto conhecer a bula, pois não sabia ler, os conhecia apenas pelo rótulo ou formato do recipiente, tanto que um rótulo retratando um homem com um bacalhau às costas, já sabia que era Emulsão de Scott, o mesmo acontecendo ao ver o rótulo apresentando um homem de paletó coçando as costas com o guarda-chuva, logicamente só poderia ser o Mitigal, o Biotônico Fontoura era nacionalmente conhecido pelo rótulo, até hoje quando retornou ao mercado farmacêutico após muitos anos de ausência.
Um dia, a minha mãe adoeceu e contra a sua vontade o meu pai mandou buscar o Isidoro, que passou a noite em casa. Ao chegar colocou o seu caixote de remédios dentro do quarto da doente. De madrugada as rolhas dos recipientes começaram a ser expulsas explosivamente, pressionadas pela fermentação. Como não se tratava de champagne, pela manhã a minha mãe obrigou o meu pai a despachar o Isidoro para bem longe.
Uma das insipientes cartadas que lhe deu certa notoriedade foi quando o Antonio Lopes da Costa o chamou para atender a esposa. Antonio Lopes da Costa, conhecido também como Antonico Arara, mantinha uma casa comercial muito bem sortida e um grande trapiche onde armazenava a céu aberto, uma montanha de lenha para abastecer os navios-gaiola que singravam a Amazônia, transportando gente e explorando o comércio fluvial. Esse importante porto chamava-se “Ararinha” ou “Casa Ararinha”.
Num dia não muito feliz, estando a esposa do Antonico grávida, cuja delivrance2 se complicou a ponto da criança ficar ameaçada a não nascer no tempo de um parto normal. Antonico mandou buscar em Abaeté o médico Dr. Lindolfo, que logo de início aplicou todos os medicamentos apropriados e a criança nada de nascer, pondo a casa em polvorosa. Antonio já desesperado, andando da casa para o trapiche e vice versa, até que numa das vezes que foi para o trapiche e enxergou o Isidoro que passava rente a outra margem do rio. Pegou uma toalha branca e acenava chamando (talvez a sua última esperança). Evitou que os dois facultativos (o falso e o legítimo) ficassem frente a frente para evitar constrangimento.
Isidoro entrou no quarto, examinou a paciente e a seguir mandou cozinhar um ovo de pata, dando a água para ela beber. Por sorte, acaso, ou proteção de Deus, a criança nasceu. Era um menino. O falso médico, orgulhoso de sua inesperada façanha, ao ser apresentado ao Dr. Lindolfo virou o traseiro e com deboche disse:
O Dr. Lindolfo, educadamente não revidou a afronta, só se limitou a dizer ao Antonico que o discutível sucesso do falso médico deveu-se indiretamente ao efeito retardado dos medicamentos anteriormente ministrados por ele. Mesmo assim, Antonico dominado pelo inusitado acontecimento, intimamente atribuiu o sucesso do parto ao Isidoro de quem se tornou amigo e protetor.
Isidoro era um elemento vaidoso e pávulo3, e por essas suas qualidades jamais dizia desconhecer aquilo que de fato ignorava, tanto que dizia conhecer a capital do Estado, sem ainda ter ido até lá.
Tudo passara e águas plácidas rolaram com a alegria reinante naquele vasto casarão. Antonico em sinal de agradecimento e reconhecimento face ao sucesso do parto convidou o Isidoro para passar uns dias em sua casa de Belém e de lá visitarem os locais pitorescos da cidade, na época em que ainda circulavam nas ruas os bondes elétricos. Essas viaturas rodantes sobre trilhos, quase sempre traziam no frontispício4, como propaganda, reclames de produtos comerciáveis, dentre os quais o Biotônico Fontoura.
Pois bem. No dia marcado, Antonico pegou o navio-gaiola “São Pedro” (que aportara no trapiche Ararinha para abastecer-se de lenha), e com o Isidoro a tiracolo seguiu rumo a Belém. Ao chegarem ao cais do porto, desembarcaram e pegaram um carro de praça na Avenida Castilho França, seguiram pela 16 de Novembro, praça Amazonas, e finalmente Conselheiro Furtado, onde ficava a residência do Antonico, bem em frente a sede dos Caminheiros do Bem. No trajeto, o anfitrião quis testar a veracidade das palavras do Isidoro, que proclamava aos quatro ventos que já conhecia a capital do Estado. Em frente ao mercado de peixe Antonico perguntou:
- Acredito que já conheces este prédio de quatro torres. Pois não?!
- Ora se conheço. É a igreja do Bispo.
E as perguntas foram sendo formuladas durante o trajeto. Ao passarem pela Prefeitura:
- Conheces este palácio azul?
- Conheço sim. É o Palácio onde morou o Rei.
A seguir passaram pela Companhia Inglesa de Gás, com aqueles enormes depósitos circulares acondicionadores de gás (indústria essa desativada e desmontada há anos, cujo patrimônio restante referente à área e galpões foram, posteriormente, adquiridos pela Importadora de Ferragens S/A). Antonico mais uma vez perguntou:
- Conheces esta fábrica?
- Não só conheço como já visitei uma vez. É a fábrica de Cerveja.
No dia seguinte, ambos apanharam o bonde “Circular”, e saltaram no Ver-o-Peso, no que Antonico lhe disse:
- Aqui nos separamos. Eu vou tratar dos meus negócios enquanto tu vais fazer as tuas compras. Aqui mesmo neste ponto, ao regressares pegarás o bonde Circular e saltarás naquela parada de onde viemos. Vou esperar-te para o almoço ás 11h30min. Guia-te pelo relógio da praça.
Ora, ele só conhecia as horas pelo sol quando não chovia. Antonico chegou em casa para o almoço, o relógio badalou onze e meia, doze, treze horas e o Isidoro nada! Que diabo esse homem está fazendo (pensou o Antonico).
Preocupado, pegou um carro de praça e foi até o Ver-o-Peso. Lá estava o Izidoro com um embrulho debaixo do braço encostado no poste da parada.
- O que foi que houve. Eu não disse para apanhares o bonde Circular?
- É. Acontece que por aqui só passa o bonde Biotônico Fontoura.
- Já sei... Já sei... Vamos para casa.
Mais uma semana se passou para que Antonico mostrasse ao Isidoro todos os logradouros que o “turista” tupiniquim dizia conhecer e, finalmente regressaram a Igarapé-Mirí no navio da linha.
Depois desse interregno, Isidoro voltou a sua vida esculapiana5 itinerante, atendendo chamados lá e acolá montado no seu reboquinho vermelho.
Nem bem chegou e uma lancha encosta no seu porto requisitado-no para atender um acidentado cujo antebraço e mão foram esmagados pelas moendas de um Engenho do Rio Panacuera. Isidoro pegou a sua maleta de ferramentas onde continha: serrote, martelo, talhadeira, formão, enxó, pua6, terçado, peixeira, etc. e seguiu para socorrer o acidentado. Chegando lá, não conversou, pegou o rapaz e o fez deitar sobre o picadeiro. Circundou o músculo com a peixeira, pisou com os dois pés de um lado e de outro e pelo golpe meteu o serrote, que indo e vindo entre a fresta das duas tábuas do picadeiro seccionou o osso. Desinfetar as ferramentas, nem pensar. Anestesia não havia e nem precisou: o acidentado desmaiou. Sutura: linha fina de pesca com agulha grossa. Curativo: balsamo Mundial. Nem o tétano, nem a esposa gangrena compareceram no ato da operação. Quem compareceu então? Foi Deus e a divina providência. Até que o Isidoro tinha sorte.
De outra feita, o Isidoro foi chamado para atender um doente de nome Solano, em estado terminal entregue às garras de um paludismo pernicioso. Ao chegar, tirou de sua maleta um alcoômetro G.L. de medir grau alcoólico de cachaça e meteu na boca do doente por alguns minutos e ao retirar, disse:
- Noventa graus de doença.
Examinou o doente e proferiu o diagnóstico:
- Pipocas no fígado. Vou operá-lo.
Puxou de sua maleta uma “quicé” nº1 e enterrou na barriga do doente, que morreu na hora!
- Ora bolas! Ele foi muito mole, não aguentou a operação. Disse o Isidoro.
Por essa “operação” ele andou perto de ver o sol nascer quadrado, não fosse a interferência do Antonico, que era influente e gozava de grande prestígio no município. Depois desse fato, nunca mais tive conhecimento de outras façanhas do Isidoro. O que ficou foi a lembrança deixada pela sua folclórica medicina atípica, que na falta de verdadeiros médicos no interior do Estado naquela época, lhe dava um relativo direito de tentar salvar vidas ou mandar alguém para a cidade dos “pés juntos”, por lhe faltar um cabedal de maior competência.
O pequerrucho que tanto trabalho deu para nascer era filho único do Antonico, e infelizmente por ser fraco e doentio veio a falecer ainda menino. Anos depois, o Antonico morreu e a viúva sem a experiência comercial do marido, viu aquele patrimônio desaparecer. Como isso ocorreu? A viúva fez do caixeiro o seu sócio, para gerir os negócios por se tratar de uma atividade da qual ela sozinha não podia levar a frente, e mesmo não tinha experiência gerencial. Menescal, entretanto como um felizardo bafejado pela sorte grande, diante de tanta fartura, não soube aproveitar com parcimônia a dádiva caída do céu e veio a transformar-se num boêmio inveterado, e dest’arte, não segurou com firmeza o timão do “barco” Ararinha, que ele mesmo arremessou contra o abrolho da insensatez.
Glossário
1. Quartilho: A quarta parte da canada* (*Antiga medida portuguesa, igual a 4 quartilhos.
2. Delivrance: Parto, Resolução do parto. Clinicamente, o estudo do parto analisa três fases ou períodos principais(dilatação do colo do útero, expulsão do feto,e secundamento, dequitação, ou saída da placenta).
3. Pávulo: Deriva de “Pavulagem”, expressão paraense que significa pessoa orgulhosa, metida à besta.
4. Frontispício: Frontaria principal.
5. Esculapiana: De ESCULÁPIO, que significa médico ou indivíduo que conhecimentos médicos.
6. Pua: Nome de um instrumento que serve para furar.
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