quarta-feira, 18 de agosto de 2010

“Padre Emílio”

Quem não conhecia o saudoso Padre Emílio Martins? Ninguém.
Ele, embora fosse espanhol de nascimento tinha como segunda pátria o Brasil, e amava o Pará.
Eu o conheci já idoso, como vigário da matriz de Sant’ana, na cidade de Igarapé-Miri, minha terra natal, função religiosa que exercia naquela cidade, anos a fio. No palmilhar de suas desobrigas nos limites de sua paróquia, não só era amado como respeitado por todos. Seu nome e virtudes ultrapassavam os limites do município no eixo: Belém, Moju, Cametá, Mocajuba, Baião... Quiçá cidades, vilas e povoações da calha tocantina.
Aonde chegava transmitia simpatia brotada do bom humor e da elação² que o condicionava a brincar com todo mundo e afagar as crianças. A sua popularidade se fazia tão evidente, que ninguém lhe cobrava passagem tanto nos bondes da capital como nas embarcações fluviais da linha tocantina. No desempenho do seu ministério religioso se fazia presente a generosidade, que lhe era inata. Batizava, casava sem se preocupar com o valor das espórtulas³, batizados, etc. De pessoas pobres, com poder aquisitivo insuficiente, nada cobrava.
Além de sua profissão de sacerdote, chegou a cursar até ao terceiro ano de medicina, não terminado por motivos superáveis, mas de qualquer modo, esses conhecimentos adicionais serviram para socorrer pessoas em certas ocasiões emergenciais num local totalmente carente de médicos. Certa vez, ao chegar a Casa "Sempre Viva" do Manoel Pinheiro Lopes (o Branco Velho), veio de encontrar uma das filhas do "Branco", com febre alta que já se prolongava por mais de duas semanas sem ser debelada. Padre Emílio fez a moça sentar numa tina com água quente até a cintura, numa temperatura suportável e sobre a cabeça da doente, derramou um pote de água fria. Imediatamente a febre passou e não voltou.
Em se tratando de alimentação, o padre era um inveterado glutão. Aonde chegava, (na casa dos seus paroquianos) desconhecendo o relógio, que não combinava com o seu estômago, após abraçar os donos da casa, ele ia passando para cozinha a destampar panelas para certificar-se que de fato não estavam vazias. A cozinheira após lhe beijar a mão, lhe dava uma prova de cada panela, findo o que ele dizia: Está aprovado o cardápio para o al­moço.
Um dia ele estava em Belém. Era festa de N.Sra. de  Nazaré. Chegando á nossa casa a Praça Frei Caetano Brandão (Largo da Sé), onde morava meu cunhado Antonio e minha irmã Alice. A me­sa estava posta com os acepipes apropriados para comemorar o CÍRIO. Convidado, o padre Emílio, sentou-se conosco em redor da mesa e almoçou lautamente4, passando pelo pato no tucupi, galinha e acessórios.
Terminando o almoço meu cunhado disse:
- Agora padre, vamos esperar na sala um cafezinho novo e cheiroso.
- Não, Totônio, Eu não posso demorar.
- Por que, padre?
- Os padres da Basílica de Nazaré estão esperando-me para o almoço. Até logo.
Tendo de viajar para Belém, quando ainda morava no interior, o meu cunhado ao aportar à cidade de Igarapé-Miri, enxergou o padre Emílio entre o pessoal que estava sobre o trapiche. Mastigava algo, que só ao desembarcar veio a constatar que do bolso esquerdo da batina ele tirava tanisca de pirarucu frito que jogava na boca juntamente cora farinha que tirava do bolso direito.
Uma noite, padre Emílio, viajava do rio Maiauatá para a cidade, numa pequena embarcação à faia, protegido do sol e da chuva por uma cobertura tecida com palha de ubuçu e talas de jupati. De repente, relâmpagos e trovões anunciaram a precipitação de uma torrencial tempestade que de fato desabou a tornar revoltas as águas do rio. Ao passar em frente à ponta do Bexiga*, um ganido an­gustiante de um cão abandonado, se fez ouvir em meio a ventania que açoitava as árvores do beiradão. O padre mandou o remeiro encostar a embarcação e recolheu o animal que tiritava de frio. Esse cão afeiçoou-se ao padre, ao ponto de não contrariar o ditame de que o cão é o maior amigo do homem. Quando o padre viajava pelo interior do município, um seu vizinho cuidava e gostava muito do animal.
Anos se passaram até que o vigário foi transferido para outra paróquia em outro município distante. Ao viajar o vizi­nho pediu para ficar com o cachorro e foi atendido. Muitos anos após a sua ausência, um dia o padre Emílio desembarcou em Igarapé-Miri, e um cão vindo lá de terra pulava em sua frente fazendo a maior festa: era o seu amigo canino que salvara da tempestade.
O padre Emílio era alto, robusto e tinha uma saúde de ferro, porém sofria de uma hérnia que nunca quis operar e por essa razão, em determinadas ocasiões sofria muito. Um dia ele via­java na moto-embarcação "Lopes Filho" com destino à Belém. Nessa viajem, dentre outras pessoas, iam: meu cunhado Antonio e o seu em­pregado Pedro, mais conhecido como Pedro Gargalhada, sobrenome originário do seu modo de rir. A viagem seguia mansa e pacífica no deslizar da embarcação sobre a lâmina aquática do Moju. Pedro, na proa, ia contando lorotas ao piloto Manoel Dolores, e de quando em vez, explosões de gargalhadas eram ouvidas lá na popa. As basófias do Gargalhada, consistiam em querer convencer o Manoel de que ele, Pedro, era o “tal” nas atitudes que tomava:
- Olha Manoel, eu não dou arrego a patrão.
- Como assim Pedro?
- Patrão não grita comigo, patrão me respeita e patrão tem que me tratar bem.
- Não achas que estás muito exigente?
- Não. E acima de tudo eu não puxo saco de patrão.
- É mesmo?
- Se um dia tiver de puxar o saco de patrão, antes eu peço as contas.
A conversa entre os dois ia animada, quando algo aconteceu lá na popa da embarcação: foi a hérnia do padre, que havia arriado, e passava mal. O meu cunhado Antonio, não dispunha de remédio apropriado e numa situação como essa, a única providên­cia viável seria o recolhimento da hérnia:
- Pedro! Pedro!
- Pronto patrão. O que deseja?
- Vem aqui, recolher a hérnia do padre.
- Espalma a tua mão.
Por não haver outro remédio apropriado e disponível, o meu cunhado derramou nas mãos do Pedro um pouco de óleo de cicuta (único existente a bordo) mandando que fizesse a massagem da região escrotal para o abdômen.
Após o recolhimento da hérnia, o Pedro, voltou para junto do Manoel, que detonava gargalhadas a vários decibéis.
- O que é isso aqui? Vocês não respeitam o padre? Protestou o meu cunhado.
Respondeu o Manoel:
- Eu não estou rindo do padre. Eu estou rindo do Pedro porque antes ele disse que nunca puxaria saco de ninguém e agora acaba de puxar o saco do padre.
Já passado vários anos, já velho, o padre Emílio foi recolhido ao Arcebispado, e esporadicamente rezava a missa sem pertencer a nenhuma paróquia. Continuava a ser um bom talher a comer tudo que pudesse ser deglutido.
Em setembro, chegara o dia dos festejos da padroeira da vila Maiauatá, não havia padre, nem mesmo da sede do município. Em Belém, o meu cunhado foi procurado por um dos diretores da festa, no sentido de, por seu intermédio, conseguir um padre. Meu cunhado Antonio, tendo como endereço o largo da Sé, vizinho do Arcebispado, julgava-se apto a negociar um padre, junto ao Arcebispo, e para lá se dirigiu:
- Senhor Arcebispo. Eu preciso de um padre para ministrar a festa da vila Maiauatá
- Infelizmente estamos com escassez de padres. Não tenho nenhum disponível para setembro.
         O meu cunhado lembrou-se do padre Emílio, que segundo soube, estava no arcebispado. Disse:
- E o padre Emílio? Não está disponível?
- Pelo amor de Deus, não me fale no padre Emílio. Há três meses pediram-me para ele celebrar uma festa no interior. Acontece que comeu sardinha em conserva (estragada) de madrugada. Chegando aqui (quase morto) direto para o hospital, onde ficou por muito tempo, entre a vida e a morte. Padre Emílio não!
         Meu cunhado deu marcha a ré e despediu-se, convicto mais uma vez de que o padre Emílio continuava a ser o mesmo glutão de sempre.

GLOSSÁRIO
1.        Desobriga - Relig. catól. Cumprimento do preceito quaresmal.
2.        Elação – Altivez / Elevação, sublimidade.
3.        Espórtulas - Pequena quantia com que se retribui um serviço feito por quem não tem salário determinado. Gorjeta.
4.        Lautamente – Adj. Lauto: Abundante, magnífico.


*Igarapé da região de Igarapé-Miri.


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Editado por: Elainne Caroline Dias

2 comentários:

  1. Cresci ouvindo de meu pai muitos relatos a respeito de Igarapé-mirim e principalmente do interior do município: Maiuatá, meruú, Murutipucu, Panacuera... Rios que tive a oportunidade de conhecer e que povoaram minha imaginação quando criança! Brinquei nas ruínas do engenho horizonte e ficava imaginando aquele lugar no seu auge, as embarcações, montarias, batelões...! Sempre achei que esses relatos eram de uma grande riqueza, não apenas por se tratarem de casos inusitados, engraçados, mas principalmente pelo resgate histórico que os mesmos nos proporcionam, relatos de uma época de prosperidade e ordem que hoje, mais do que nunca precisa ser valorizada! Gostaria de agradecer respeitosamente ao Sr. João Fortes, que pelos meus cálculos é meu tio avô, ao André e todos os demais envolvidos nesse trabalho maravilhoso! Um conto melhor que o outro! Só tenho a agradecer e ansiosamente esperar pelos próximos! Um abraço fraterno a todos! Alex dos Reis Oliveira, filho de José Maria Fortes, Filho de Maria Fortes, Filha de Ana Fortes,Filha de Nicolau Fortes.

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