terça-feira, 17 de agosto de 2010

“Usina Novo Horizonte”



Estamos carecas de saber desde as calendas1 gregas, que neste Brasil, à proporção que avançamos direção sul para o norte, se faz sentir a discriminação soprada contra os estados pobres do norte, principalmente aqueles que constituem a “vaca leiteira” de úbere farta de matérias primas e fisiograficamente2 constitui o sempre esquecido celeiro amazônico.
Este preâmbulo acima gravado é apenas a confirmação de uma insofismável realidade, dentre outras, demonstrada quando o meu pai teve a corajosa audácia de iniciar a implementação de uma usina de açúcar anexa a seu pré-existente engenho “Novo Horizonte”, de fabricação de aguardente e álcool, localizado à margem esquerda do rio Meruhu, no município de Igarapé-Miri.
O nordeste detinha e ainda detém a hegemonia de maiores produtores de açúcar no Brasil e era encabeçado por Pernambuco, Rio e São Paulo. Meu pai João Nicolau Fortes, levou avante a sua idéia açucarada, cuja indústria ampliaria o desenvolvimento da região, inclusive mais oportunidades de empregos que naquela época declinava. E, não contendo o seu entusiasmo, o velho lançou a pedra fundamental de um ideal (que esperava ser a realização de um sonho colorido) encomendando os maquinários necessários. Mal sabia que alguns meses após o assentamento basilar3 das estruturas, um famigerado decreto “getuliano” fermentado nos tonéis do Instituto do Açúcar e Álcool (IAA)* veio estabelecer o monopólio de fabricação de açúcar exclusivamente pelas usinas Já existentes: nordeste e sul. O mesmo decreto proibia também a construção de novas usinas e exigia um controle rígido de produção.
Com essa medida discriminatória, o decreto veio de surpresa, uma vez que a usina Novo Horizonte começava a ser instalada. E agora? O que fazer? Meu pai, apenas eleitor e simpatizante do partido Liberal, diante desse acontecimento inesperado e aparentemente sem solução, resolveu enveredar-se pelo caminho que leva à política. Nessa época o Pará tinha no Congresso Nacional, dois liberalistas, luminares da ciência Jurídica: o Deputado Lameira Bittencourt e Álvaro Adolfo da Silveira, ambos catedráticos da Faculdade de Direito do Pará. Foi o segundo, que advogou a causa em questão.
Foi fácil provar que meu pai iniciou a construção da usina antes da vigência do decreto, com base nas faturas da firma Pires da Costa & Cia Ltda., proprietária da oficina de fundição, que forneceu os primeiros equipamentos essenciais, principalmente o aparelho de cozimento a vácuo e a respectiva bomba.
Com esses elementos comprobatórios anexados ao processo reivindicatório de direitos, o julgamento afinal foi ratificado favoravelmente ao impetrante, acrescido a tudo isso, o brilhante trabalho do advogado Professor Álvaro Adolfo da Silveira. Mesmo fácil como pareceu ser a perlenga esgrimada no terreno de uma lide desenrolada numa capital da república, precisava de um advogado de tutano, de grande prestígio e competente para deslindar a questão em pouco tempo, e foi o que aconteceu. Antes da "Novo Horizonte" já existiam duas usinas: uma do J. do Vale & Cia, em Igarapé Miri e outra do José Saul em Abaetetuba.
A fabricação de açúcar pronta e acabada era escriturada num livro de estoque para evitar que a produção não ultrapassasse a quota anual estipulada pelo (IAA). Um belo dia pintou no pedaço um empertigado4 fiscal do IAA, irradiando do seu esqueleto, uma postura leonina, com a intenção pré-concebida de esmagar uma barata com uma simples patada, pois afinal de contas aquela usina (para ele e o Instituto) era apenas uma estrela de ínfima magnitude na constelação das grandes usinas pernambucanas e sulistas.
O dito cujo, arrebitando o seu nariz de empáfia, examinou o livro (escriturado pelo meu cunhado Joaquim) e nada encontrando de anormal dirigiu-se à fábrica com a finalidade intencional de encontrar ali uma agulha no palheiro e com ela ferir o orgulho do meu pai e conseguiu. No depósito não havia sacos com o produto em estoque. Na usina, em pleno funcionamento no estágio de elaboração, estavam dois carretões cheios do produto semi-acabado recém saído do cozimento. Mais além, um caixote cheio de açúcar saído da turbinagem para entrar no processo de trituração e refinação.
O energúmeno, tanto pensou para captar ondas negativas até que encontrou. Estufou a caixa de catarro e escarrou um petardo5:
- Esse caixotão de açúcar em cristal corresponde a quan­tas sacas de produto acabado?
Respondeu o meu pai:
- De 20 a 22 sacos de 60 quilos.
- Só isso?!
- Só isso. Deve-se levar em conta um percentual de quebra no manuseio e no desperdício pela ação do vento.
- Eu não acredito.
- O senhor pode não acreditar, mas essa é a verdade.
- Bem. Então mande ensacar para eu ter certeza.
- Isso eu não posso fazer. Mandar ensacar um produto inacabado para satisfazer a sua vontade descabida para depois voltar ao caixotão? Jamais.
- Eu sou o fiscal do Instituto e tenho prerrogativas para tal.
- Eu sou o dono da minha palavra e prezo pela veracidade da mesma. Se não acredita em minhas palavras, você mesmo ensaque e pese o produto.
Aí foi mesmo que encostar uma centelha no fundilho de um foguete espacial. O homem subiu à estratosfera e quando desceu, pegou o livro de estoque lançou à margem, um auto de resistência impondo uma multa. O maior insulto assacado contra o velho era duvidar de sua palavra. Dominado o rescaldo6 do “incêndio”, o meu pai já de cabe­ça fria, despachou uma carta ao seu colega J. do Vale, oferecendo a venda de todo o maquinário da usina pela bagatela de oitenta mil cru­zeiros. Um abastado comerciante do baixo amazonas, sabendo da possível venda, despachou o meu cunhado Antonio Lopes numa lancha fretada pa­ra oferecer pela usina, a quantia de cento e vinte mil cruzeiros. O velho simplesmente disse:
- A preferência é do J. do Vale, se aceitar o meu preço... Pois eu só tenho uma palavra.
O J. do Vale aceitou a pechincha de uma briga, e o enge­nho Novo Horizonte continuou a fabricar a sua aguardente e o seu ál­cool num ambiente de paz. O meu pai, sempre trabalhou num âmbito de tranquilidade, renegando pressões. Não devia a ninguém, o seu crédito era ilimitado. Como abastado comerciante e industrial, geria com sucesso um grande patrimônio.
Essa amostra de prosperidade e progresso o levou a viver quase 100 anos, não seria um borra-botas qualquer vin­do da terra do nunca para perturbar o seu trabalho. Portanto, como sempre dizia referindo-se a usina; vão-se os anéis e fiquem os dedos.
A seguir um adendo explicativo para as pessoas que se interessem em saber (por linhas simples e gerais) como se fabrica açúcar:
XAROPE
01  Pela moagem obtém-se o caldo de cana.
02  O caldo ao sair das moendas, verte em canaleta pas­sando pelo gás de enxofre.
03  Da “enxofreira”, segue em direção aos tamborões chamados de “defecadores”.
04  Nos defecadores, o caldo é fervido à vapor.
05  Durante a fervura os detritos de bagaço sobem formando uma nata desprezível que flutua.
06  Algumas horas de fervura, o vapor é desligado e os defecadores são sangrados por baixo e o líquido re­sultante, através de um tubo é despejado em tachas de fervura a vapor.
07  Uma vez nas tachas, continua a fervura até o líquido transformar-se em xarope. Enquanto ferve qualquer resíduo que ainda sobrenade na espuma, é retirado com a escumadeira, até que o xarope se torne completamente limpo e puro.
CRISTALIZAÇÃO
01  O xarope é sugado pelo aparelho de vácuo.
02  O aparelho de vácuo, aquecido á vapor procede a fervura do xarope eliminando água até formar o melaço grosso misturado com os cristais de açúcar. Se a fervura do xarope não fosse no vácuo os cristais adquiririam a cor parda, queimados pelo oxigênio e se transformariam em açúcar mascavo.
TURBINAGEM
01  A turbina é um recipiente circular rotativo que acionado produz um movimento centrífugo. Em funcionamento, a mistura de melaço e cristais de açúcar é centrifugada para periferia do aparelho contra uma tela fina, de modo a expulsar o melaço deixando o açúcar.

REFINAÇÃO
01  Saído da turbinagem o açúcar cristalizado entra no moinho para ser triturado, saindo através de uma tela para ser o açúcar refinado pronto e acabado.


GLOSSÁRIO:

1. Calendas - Primeiro dia de cada mês, entre os Romanos. Para as calendas gregas: nunca.
2. Fisiografia - Descrição da terra e dos fenômenos que nela se produzem.
3. Basilar - Que serve de base (a um órgão).Fig. fundamental, essencial
4. Empertigado – Vaidoso, orgulhoso
5. Petardo - Caixa de pólvora que se aplicava para fazer saltar as portas de praças ou cidades sitiadas; bomba.
6. Rescaldo - Borralho ou cinza que ainda conserva brasas.

*Refere-se provavelmente ao Decreto nº 22.981, de 25 de Julho de 1933


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Editado por: Elainne Caroline Dias

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