Eram dois Irmãos inseparáveis: Osório e Manoel. Ambos trabalhavam em canaviais no município de Igarapé-Miri, onde moravam. Tanto Osório como Manoel pertenciam a uma “seita” que professavam com devoção e submissão, nela adoravam três “divindades”: Festa, Cachaça e Baralho. De madrugada, antes de irem para o canavial jogavam goela abaixo um avantajado “mata bicho” calibrado na pureza alcoólica de 21 graus G L.
Osório, baseado no físico avantajado de seus bíceps e demais condições musculares de seu esqueleto, promovia arruaças nas festas após a ingestão etílica de vários goles de pinga. Era o mais prosaico dos dois, gesticulava, papeava a contar lorotas, principalmente quando em sua cachola fervilhava o efeito da “mutamba”.
Lembro-me de uma ocasião na qual minha irmã Alice que criava muitas galinhas caipiras no sítio chamado Atividade, onde o casal residia, meu cunhado tinha como ganha-pão uma loja de secos e molhados. Além de outros afazeres domésticos, Alice tinha o seu plantel de galinhas, patos e perus, que para ela era autêntico lazer. Acontece, entretanto que os gaviões rondavam o terreiro onde as penosas ciscavam o chão o dia todo após a ração de milho. Eram esquadrilhas de gaviões, rasgando os céus daquele beiradão do Rio Maiauatá em missão suicida fazendo acrobacias, e por vezes um deles flechava em parafuso, capturando alguma franga para saboreá-la num saboroso repasto.
Como a melhor defesa é o ataque, o meu cunhado usando uma estratégia cabocla, resolveu pregar uma peça num astuto gavião, grande conhecedor da localização do galinheiro que era o Q.G. do general galo. O rapino, vez por outra capturava uma galinha. Para conseguir aprisionar aquele audacioso “falconídeo japacanim” inimigo sem gastar bala, armou uma arapuca no terreiro em frente ao comércio, usando um paneiro desses que são usados para prender patos. Sob o paneiro foi colocado um apetitoso frango como isca.
Não deu outra, o gavião era um cara de pau que desta vez ao invés de vir pelo ar em vôo rasante, ele aterrissou longe do pasto e veio de mansinho em marcha cadenciada até a “casamata1” traiçoeira, onde por força do destino ficou aprisionado.
O meu cunhado para se vingar do rapino, que lhe havia afanado várias galinhas, ao invés de matá-lo resolveu submetê-lo a tortura psicológica: amarrou um cordel numa das pernas do malandro, espalhou milho sobre ele e soltou todas as galinhas. Envergonhado e impotente, se estampou na cara do gavião um semblante de frustração e tristeza. A intenção do meu cunhado era soltá-lo, para com a lição que recebeu aprendesse a respeitar as galinhas alheias. Acontece, entretanto que inesperadamente chegou o Osório, cheio da “mutamba”, no justo momento do espetáculo gavionístico e cambaleante. Disse categoricamente:
- Gavião comendo as galinhas do meu patrão? Isso nunca!
Pulou da ponte para o terreiro, e com uma só dentada decepou a cabeça do prisioneiro alado e começou a comê-lo ainda vivo, com o sangue do animal a escorrer-lhe pelos cantos da boca. O meu cunhado não gostando daquela cena repugnante, tirou o gavião das mãos do Osório jogando para bem longe, terminando assim o “gavianocídio”.
Reportando-me agora a um período de idos tempos, havia a proibição do jogo de azar, estabelecida por dispositivo de uma Lei federal, e levada muito a sério pelas autoridades constituídas. Osório e Manoel, que eram vidrados em carteado, estavam jogando baralho à sombra de um cacaueiro existente na época aos fundos do engenho do meu pai. Bem escondidos de elementos perturbadores. Quando um agente de polícia desses competentes farejadores de transgressores da Lei pintou no esconderijo, flagrando-os arriscando no baralho míseros “pacurus”. Inútil foi querer convencer o agente de que a aparente jogatina não passava de jogo de paciência, cujo papo não convenceu o policial. Lá se foram os dois presos com passaporte e destino ao xilindró da cidade.
Lá chegando, na presença do delegado que era um tenente reformado da Polícia Militar. Osório tomou logo a dianteira e disse:
- Seu capitão Delegado, não prenda nós. Nunca “fumo” preso.
- Eu cumpro a Lei. Vocês sabem que o jogo de azar está proibido.
- Seu delegado (disse Osório). Eu tenho aqui no “burço” cinquenta mil reis, pra vossa “insolência” nos “sortá”.
- Eu não aceito propina. Guarda, recolhe os dois!
Sem outro jeito a dar, os dois sentaram-se no centro do quadrilátero do xadrez, Osório puxa do bolso o velho baralho amigo e trançam um animado pacau.
O carcereiro correu à sala do delegado e disse:
- Os “homi” estão jogando baralho lá no xadrez.
- A Lei manda prender. Uma vez presos, daí para frente nada mais posso fazer.
Durante toda noite, de propósito, não deixaram o carcereiro dormir.
- Ei carcereiro, já que não tem cachaça me traz uma cuia com água.
- Carcereiro, deixa eu sair pra “uriná”.
- Carcereiro, eu estou com dor de barriga. Eu quero ir à privada, disse o Manoel.
- Carcereiro, eu quero ir à privada, disse o Osório.
O carcereiro, já sonolento, disse:
- Eu não abro mais o xadrez.
- Se não abrir eu faço aqui mesmo.
- Não, não! Eu já vou abrir.
Quando amanheceu o dia, o carcereiro foi ao delegado e implorou que mandasse os prisioneiros embora. Terminado o período, segundo o qual os dois deveriam ser libertados, o delegado foi até ao xadrez e determinou ao carcereiro:
- Abra o xadrez!
- Pra quê? Perguntou o Osório.
- Vocês estão livres.
- Seu delegado. Eu fiz tudo pra não ser preso e o “sinhú” não “iscutú” agora nós não “queremu” sair daqui.
- Por quê?
- “Pruquê” aqui não “trabalhemo”, nós “cumemo” de graça, nós “juguemo” o nosso baralhinho e de sobra ainda “inchemu” o saco do carcereiro.
Para que os dois abandonassem o xadrez, tiveram de ser carregados e despejados no meio da rua, terminando assim a mordomia prisional dos dois.
Depois dessa lição, os irmãos voltaram para suas casas e continuaram como sempre a beber, jogar, dançar e brigar nos forrós.
Passaram-se alguns anos, e um dia apareceu o Osório, já combalido pelo efeito deletério do álcool:
- Patrão, a minha “canua” é “gita” e eu quero que “vucê” me empreste uma maior para eu ir à Abaeté, arrancar este meu dente “pudre”.
- Tudo bem. Leva aquela ali que está amarrada naquele moirão.
Lá se foi o Osório. Não passou duas horas ele já vem voltando. O meu cunhado lá com os seus botões se pergunta: Ué! Uma viajem a Abaeté (ida e volta) em canoa a remo leva um dia inteiro, dependendo da maré.
- Osório. O que foi que houve? Não fostes mais?
- É que eu “sartei” na vila Concórdia para beber um gole e trancei um jogo de baralho com o “Polvarinho” e de gole em gole, acabamos brigando. Ele me deu um murro na cara arrancando o meu dente. “Fui” até “bão” porque economizei o dinheiro do dentista.
Glossário
1. Casamata: Bateria abobadada.
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